Economia de Francisco, Clara e de tantas Marias

É preciso ter sonho sempre / Quem traz na pele essa marca / Possui a estranha mania / De ter fé na vida – “Maria, Maria”, de Milton Nascimento.

Por: Gabriela Consolaro Nabozny

O chamado a re-almar a Economia feito pelo Papa Francisco fez desenvolver, no Brasil, um movimento de entusiastas de uma sociedade fraterna, solidária e plural. Não só jovens, formalmente convidadas[1], mas todas aquelas que já trabalhavam pela construção da mesma ideia, antes mesmo de ser formalizada pelo pontífice, uniram-se numa rede de apoio e impulso, espalhando pelo País a possibilidade de novamente esperançar, com um novo horizonte a ser descoberto.

A inclusão brasileira de “Clara” ao lado de “Francisco”, decisão firme e certa desse grupo, demonstra a necessidade de que o movimento no país evidencie a resistência à construção machista e patriarcal do sistema que se pretende repensar. Diferente da lógica europeia de observação do mundo, o Sul Global sente a obrigação de salientar ideias de igualdade que não são apenas importantes, mas essenciais para cogitar um outro modelo de relações. No Brasil, imersos em uma onda de conservadorismo e de defesa de princípios que pareciam já ter sido – numa perspectiva de evolução lógica – ultrapassados, reafirmar a igualdade entre os gêneros, a luta anti-racista, o respeito aos direitos fundamentais, à população LGBTQIA+, são condições imprescindíveis de qualquer análise sã da conjuntura.

A Economia de Francisco e Clara só existe se baseada nessas lutas. Clara traz consigo a necessidade de evidenciar o que é invisibilizado. Clara foi jovem, mulher, ousada, corajosa, enfrentou o sistema e conseguiu o que acreditava ser importante para construir a fraternidade. Incluir e destacar a figura da mulher, nesse processo, demonstra não só o dever francisclariano de dar o devido lugar ao papel de Santa Clara na construção de toda a espiritualidade e carisma que fez de Assis terra fértil do humanismo solidário. Demonstra, também, a importância da figura feminina na estruturação da Economia, a qual se pretende repensar. Clara, na Economia de Francisco e Clara, carrega tantas Marias, Daianes, Marinas, Silvanas, Anas, Marianas, que constroem diariamente as bases de um mundo menos desigual.

A mulher é símbolo[2] de muito do que se pretende construir nesse movimento. Não no sentido da obrigação do cuidado e da atenção, carga histórica que muito custou (e custa) na vida de tantas companheiras, mas para evidenciar a importância que têm, ao ser suporte econômico de famílias, ao construir a fraternidade em suas vizinhanças, ao propagar saberes ancestrais e, ainda mais, por ser resistência viva num contexto em que não é priorizada e muito menos valorizada, tendo que se impor rotineiramente, pelo simples existir.

O cíclico que invade a vida feminina, agora precisa também habitar a Economia. É urgente a superação da lógica linear, do crescimento desenfreado, da consideração de apenas um setor da sociedade em detrimento de tantos outros. Impõe-se a ideia do circular, da valorização das boas iniciativas que já existem, da adoção de uma perspectiva plural, aberta, integral, assim como nos foi apresentada na Encíclica Laudato Si’. Superando, dessa forma, os fundamentos enraizados na lógica masculina que hoje nos rege nos sistemas econômico, político, jurídico.

Da mesma maneira que foi destacado na Carta da Articulação Brasileira pela Economia de Francisco e Clara, queremos caminhar “da competição para a colaboração; do egoísmo para a generosidade; da exploração para a sustentabilidade; da acumulação para a distribuição; do desequilíbrio nas relações entre pessoas e países para o equilíbrio, com comércio justo e solidário; do consumo desenfreado ao consumo responsável; da ganância ao altruísmo.”

Assim como indicou Francisco de Assis no Cântico das Criaturas, a Mãe Terra é também irmã e, nessa cantiga conjunta, precisa também do foco do nosso olhar. A perspectiva feminina da Economia de Francisco e Clara brota do cuidado com a Casa Comum, da atenção à sabedoria ancestral, presente em inúmeras mães e avós que indicam, por vezes sem saber, a construção anti-sistêmica: pela solidariedade, pela sabedoria oralmente reproduzida, pelo contato íntimo com a natureza que ensina com maestria sobre paciência, cuidado e persistência. Coloca-se no centro do diálogo, portanto, a valorização de quem tem a potencialidade de dar a vida – fisicamente ou não -, afinal, pretende-se construir, nesse processo, uma Economia a serviço da vida.

Para o evento internacional “Economia de Francisco”, uma das doze Vilas Temáticas, que se propõem a pensar pontos específicos do grande projeto, é intitulada “Mulheres pela Economia”. Nesse espaço, pretende-se compreender novas formas organizacionais, estilos de governança e liderança e novas formas de relações, para construir uma economia inclusiva, cooperativa e voltada para a vida.

Com o impulsionar gerado pelo chamado do Papa, junto das lutas cravadas na pele de tantas brasileiras, a Economia de Francisco e Clara quer fazer ecoar no nosso território o clamor de tantas mulheres que carregam nos ombros a vida, a família, a Economia. Ao juntar inúmeras pessoas que gestam em si a estranha mania de ter fé na vida, não só Clara, mas todas as Marias passam a fazer parte da mesmo propósito: construir uma Economia a serviço dos povos.

Gabriela Consolaro Nabozny – Formadora Nacional da Juventude Franciscana (JUFRA) do Brasil. Integrante da Articulação Brasileira pela Economia de Francisco e Clara


[1] Nesse texto, opta-se por usar os plurais no feminino, na intenção de fazer questionar o uso do masculino para representar a todas e todos, tão significativo, e considerando que, ao fazer uso do feminino, também a integralidade é incluída.

[2] Importante destacar que a figura do feminino não representa o imaginário socialmente criado, que nos impõe responsabilidades não necessariamente presentes na personalidade individual.