Espiritualidade e laicato

Por: Edvaldo Carneiro da Costa

Vivemos tempos difíceis, nossa civilização está numa crise de sentidos. A crise atinge todas as dimensões de nossa existência. Em tempos assim, buscamos uma saída, aquela luz que nos permite caminhar na direção do novo paradigma eco-social-espiritual. Crise é oportunidade de crescimento[1], portanto, eis o momento da busca por caminhos novos e libertadores. É dentro dessa realidade que se insere com urgência o tema da Espiritualidade e Laicato.

     Nos últimos sessenta anos, avançamos muito em novas tecnologias, processos produtivos, passamos inclusive a ver a Terra de fora da Terra. Em contra partida, é evidente que o ser humano, na medida em que foi para as fronteiras do Sistema Solar, ou cada vez mais mergulhou na interioridade da matéria através da Física Quântica e com o auxílio  das novas ciências,  foi se distanciando do seu centro pessoal. Agora, é o momento de fazer o caminho de volta, isso significa dizer que precisamos buscar e desenvolver uma Eco-espiritualidade-integral, nos moldes daquela sugerida pelo Papa Francisco em sua Encíclica Laudato Si’[2].

  1. O conceito de espiritualidade.

A palavra espiritualidade deriva de espírito que em hebraico é ruah (feminino), em grego é pneuma (neutro), em latim spiritus (masculino). Em todos esses casos a palavra espírito significa alento, respiração, ar, vento, dinamismo. Existem várias definições para o termo espiritualidade, queremos aqui, reter aquela que aponta a espiritualidade como “aquilo que em nós produz uma mudança interior”[3] e que, depois, se traduz em gestos concretos, libertadores e transformadores da realidade. A espiritualidade potencializa a prática, permite também ressignificar a vida.  A espiritualidade está ligada a vivência, sentimentos e as emoções profundas. Nos momentos de crise as pessoas buscam por aquele “algo mais” que lhe preencham e as religuem consigo, com o outro, com a vida e com o Todo Outro, Deus. O que se busca na verdade é fazer uma experiência integradora. É importante dizer que a espiritualidade não é privilégio de algumas pessoas especiais, que fizeram uma escolha especial e vivem em lugares especiais. A espiritualidade é uma condição antropológica, aqui já podemos ver a importância do tema proposto, em especial no tocante ao laicato. A espiritualidade é patrimônio das pessoas comuns, que vivem o dia a dia com retidão e honradez. Essas pessoas não perdem o sentido da solidariedade, cultivam o espaço sagrado do Espírito, seja em suas religiões e Igrejas, seja no modo como pensam e agem.

  • Espiritualidade, caminho para a re-centralização da pessoa.[4]

 Todo ser humano é uma exterioridade, interioridade e profundidade. A exterioridade consiste no conjunto das relações com tudo o que existe no universo. A interioridade é entendida como tudo o que é voltado para dentro e diz respeito ao mundo interior de cada um, sua psique. Pela profundidade o ser humano é capaz de captar o que está além das aparências. Por essa dimensão se capta a mensagem que vem da realidade e a profundidade de todas as coisas, pergunta-se por aquela realidade última capaz de dar sentido à vida, Deus![5] Portanto, quanto mais mergulhados na realidade, mais espirituais seremos, quanto mais espirituais, mais envolvidos com a realidade estaremos. A espiritualidade permite desenvolver o nosso centro[6], lidar com nossas crises e perdas, e ao mesmo tempo nos leva ao compromisso eco-social, caso contrário, não é espiritualidade e sim fuga, espiritualismo, fetichismo![7]

  • Eco-espiritualidade integral.

Pela fé a pessoa eco-espiritual entende que seu cuidado com a criação de alguma forma é incorporado no trabalho de Deus que tudo sustenta continuamente. Sobre o trabalho de Deus temos a afirmação de Jesus no evangelho segundo João: “Meu Pai trabalha até agora e eu também trabalho” (Jo 5,17). Embora essa citação esteja dentro das polêmicas entre Jesus e os fariseus encontradas com frequência no escrito joanino e de forma dominante nos capítulos 5 a 12[8], ela nos remete ao trabalho que Deus realiza na criação e do qual o se humano (leiga e leigo) é chamado a incorporar-se e dar continuidade.

Quando se analisa o quadro ecológico atual a impressão que se tem é assustadora, porém, a eco-epiritualidade, quando vivida em suas quatro dimensões, a saber, a eco-ambiental, eco-social, eco-mental, eco-integral, se apresenta como um caminho viável de transformação.

  • Traços da  eco-espiritualidade integral e libertadora.

A espiritualidade está ligada ao sentimento, importa é sentir Deus, fazer a experiência profunda com Ele. A palavra experiência é formada por três semas, a saber: ex (sair de…), peri (ao redor de…), ência (tomar consciência de…). Considero esses termos como sendo três movimentos indispensáveis para uma autentica experiência de Deus que “fala” através de fatos, pessoas e acontecimentos. A nova eclesiologia do Papa Francisco nos propõe exatamente esse movimento, por isso mesmo é considerada uma verdadeira “primavera” para todos nós!

Um primeiro traço dessa espiritualidade, ela é trinitária. A Santíssima Trindade é a melhor comunidade.[9] Sendo assim, precisamos aprofundar o nosso relacionamento com Deus que é Pai, Filho e Espírito Santo, e assumir isso como um projeto de vida. Um segundo traço, ela é Bíblica. Escutar com fé a Palavra de Deus e estar profeticamente pronto para aplicar na vida. Essa escuta em especial é possível pela prática da Leitura Orante. Um terceiro traço, ela é eclesial e litúrgica. A comunidade é o lugar especial de encontro sacramental com o Cristo vivo presente na caminhada. Um quarto traço, ela é Mariana. Maria foi toda de Deus e do povo, caminha com o povo de Deus. No Magnífica, temos o cântico profético da mulher comunitária, que sente as dores do seu povo. Também nós enquanto leigas e leigos somos questionados pelo Evangelho a sentir e assumir as dores do nosso povo hoje! Um quinto traço, ela é vivencial. É preciso testemunhar o Evangelho de Jesus Cristo o Libertador[10] através da “Fé e Vida”, isso significa “andar com Jesus na contra mão”.[11] Um sexto traço, ela é biocentrada. Precisamos saltar do antropocentrismo para o biocentrismo, colocar a vida no centro e sua defesa em todos os níveis. Um sétimo traço, ela é escatológica. O Reino de Deus começa nessa vida e se estende para a eternidade, lá se dará em plenitude.

Conclusão.

A eco-espiritualidade integral é uma dimensão do humano, ela é profundamente antropológica, qualifica as práticas, se apresenta como um caminho de transformação e equilíbrio. Quanto mais espirituais, mais encarnados, quanto mais encarnados, mais espirituais. Desenvolver e alimentar a espiritualidade significa também entrar no seguimento de Jesus, dar continuidade ao seu projeto de vida e liberdade. A leiga e o leigo, nos diversos setores da sociedade, na família e na Igreja, atualiza com seu compromisso transformador, a prática do Jovem Galileu. A espiritualidade sustenta o caminhar, confere força profética para defender a vida em todos os níveis, favorece o salto qualitativo e faz avançar do antropocentrismo para o biocentrismo. Ela também nos faz sentir-se parte e parcela de um Todo Maior, através da dimensão ecológica,  permite fazer uma experiência de não dualidade, a entrar em comunhão com os irmãos, com a totalidade da criação, as energias presentes no universo, e com Deus. Paz e Bem!


[1] BOFF, Leonardo. Crise:oportunidade de crescimento. Campinas-SP: Verus, 2002.

[2] FRANCISCO. Laudato Si’. Carta Encíclica, 2015. São Paulo-SP: Loyola, 2015.

[3] BOFF, Leonardo. Espiritualidade: um caminho de transformação. Rio de Janeiro: Sextante,2001.

[4] BETTO, Frei. Oito vias para ser feliz. São Paulo-SP: Planeta, 2014.

[5] LELOUP, Jean-Yves. Cuidar do ser. São Paulo-SP: Vozes, 1996.

[6] Id. Terapeutas do Deserto. São Paulo-SP: Vozes, 1998.

[7] GRÜN, Anselm; BOFF, Leonardo. O divino em nós. Petrópolis-RJ: Vozes, 2017.

[8] BROWN, Raymond Edward. A comunidade do discípulo amado. 2.ed.São Paulo-SP, 1983.P.65.

[9] FORTE, Bruno. A Trindade como história. São Paulo-SP: Paulinas , 1987.

[10] LUCIANI, Rafael. Retornar a Jesus de Nazaré. São Paulo-SP: Vozes, 2017.

[11] MESTERS, Carlos. Com Jesus na contramão. São Paulo-SP: Paulinas, 1995.