Alguns ruídos da comunicação afrontam a verdadeira comunicação, são as chamadas Fakenews . Diariamente geram confusões e conflitos, sobretudo nas redes sociais. Não criam laços, não informam e por fim, criam uma desestabilização nociva ao comportamento humano e às relações.
Por: Celia Soares de Sousa
Certamente quando Jesus disse que somente um Caminho nos libertará, o Caminho da Verdade (cf. Jo 8,32: “Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”), percebia que a palavra anunciada pelos comunicadores (governadores, doutores da lei, chefes dos sacerdotes…) do seu tempo, não os fazia em nome da Verdade e da Vida. Jesus denuncia o Reino dos poderosos deste mundo, e deixa isso evidente ao dizer para Pilatos que “Meu reino não é deste mundo, ou meu Reino não é daqui”. Santo Agostinho, comenta: ‘Sendo Cristo, testemunha da verdade, realmente dá testemunho de si mesmo(…): ‘Eu sou a verdade’. E em outro lugar diz também: ‘Eu dou testemunho de mim mesmo’”. Lembremos que Pilatos perguntou para Jesus: “E o que é a verdade?” , mas não esperou para escutar a resposta.
Em outra passagem, o evangelista Lucas relata que a partir de uma mulher, provavelmente simples, sem nome, mas com tal capacidade de perceber que em Jesus se encontra o Caminho, a Verdade e a Vida. Sem muito embaraço a mulher disse para Jesus: “Feliz o ventre que te carregou e os seios que te amamentaram! Jesus respondeu: Felizes, antes, os que ouvem a Palavra de Deus e a seguem” (Lc 11, 27-28). A expressão feliz para os que “antes” ouvem e seguem é uma exigência imperativa para que todas e todos batizados assumam vocação cristã.
O evangelista Lucas ao falar de Maria nos faz perceber uma mulher jovem, ativa, leiga, virgem e disposta a assumir o Plano de Deus. Ela, livremente, quis compreender melhor o como servir mais e melhor o que Deus havia prometido a todo povo que esperava o Messias, do qual ela fazia parte, o resto de Israel. Maria não compreende prontamente, assim como nós, nem sempre compreendemos os acontecimentos da nossa vida.
Maria “antes, ouviu a Palavra de Deus e por isso é modelo de como se escuta e acolhe na vida a Palavra e: “Feliz aquela que acreditou, porque será cumprido o que lhe foi dito da parte do Senhor” (cf. Lc 1, 45). A Lumen Gentium, n. 64 afirma que ela gera filhos para a Igreja pela fidelidade ao chamado e pela presença ativa na comunidade de fé.
Perceber a presença mariana na Igreja da América Latina é colher os frutos da Palavra de Deus. Quando pronunciada e ouvida a partir da necessidade dos pobres gera fruto de justiça e de vida. Neste sentido a Igreja na América Latina e Caribe, em sua V Conferência de Aparecida apontou para diversos desafios para toda a Igreja ao realizar sua vocação e missão de discípulos missionários de Jesus Cristo na América Latina e no Caribe: globalização, ciência e tecnologia, impactos na cultura, na política, nas ciências, na educação e no esporte, nas artes e na religião. Apontou para um ser humano cada vez mais sem brilho, com crise de sentido e para a realidade das famílias; a mudança de época, a nova colonização pelos impactos de culturas artificiais, as práticas imediatistas e a cultura do consumo, a precária consciência que a afeta a dignidade das mulheres e as diversas formas de violência psico-afetiva-corporal, culminando na violência do feminicídio.
Em meio ao desordenado universo de informações, nem sempre comprometidas com a Verdade, retomo o Caminho proposto pela V Conferência de Aparecida para a formação dos discípulos missionários. O primeiro ponto da formação é uma espiritualidade trinitária do encontro com Jesus Cristo que nos remete Encontro pessoal com Cristo, conforme o Documento de Aparecida – DAp, n. 243: “O acontecimento de Cristo é, portanto, o início desse sujeito novo que surge na história e a quem chamamos discípulo: Não se começa a ser cristão por uma decisão ética ou uma grande ideia, mas através do encontro com um acontecimento, com uma Pessoa, que dá um novo horizonte à vida e, com isso, uma orientação decisiva’. Isto é justamente o que, com apresentações diferentes, todos os evangelhos nos têm conservado como sendo o início do cristianismo: um encontro de fé com a pessoa de Jesus (cf. Jo 1,35- 39)” .
O segundo ponto são os lugares de encontro com Cristo: na fé recebida e vivida na Igreja, na Igreja católica temos tudo o que é bom, tudo o que é motivo de segurança e de consolo! Quem aceita a Cristo: Caminho, Verdade e Vida, em sua totalidade, tem garantida a paz e a felicidade, nesta e na outra vida!; na Sagrada Escritura, lida na Igreja; a Lectio divina ou exercício de leitura orante da Sagrada Escritura. A Eucaristia é o lugar privilegiado do encontro do discípulo com Jesus Cristo; a participação ativa na celebração eucarística dominical e nas festas de preceito. O sacramento da reconciliação é o lugar onde o pecador experimenta de maneira singular o encontro com Jesus Cristo. A oração pessoal e comunitária é o lugar onde o discípulo, alimentado pela Palavra e pela Eucaristia, cultiva uma relação de profunda amizade com Jesus Cristo e procura assumir a vontade do Pai. Também o encontramos de um modo especial nos pobres, aflitos e enfermos (cf. Mt 25,37-40), que exigem nosso compromisso e nos dão testemunho de fé, paciência no sofrimento e constante luta para continuar vivendo. A piedade popular é também lugar de encontro com Jesus Cristo, e na discípula mais perfeita do Senhor! Maria, discípula missionária.
Trazemos na mente e no coração que Maria é a grande missionária, continuadora da missão de seu Filho e formadora de missionários: “Com os olhos postos em seus filhos e em suas necessidades, como em Caná da Galileia, Maria ajuda a manter vivas as atitudes de atenção, de serviço, de entrega e de gratuidade que devem distinguir os discípulos de seu Filho. Indica, além do mais, qual é a pedagogia para que os pobres, em cada comunidade cristã, “sintam-se como em sua casa”. Cria comunhão e educa para um estilo de vida compartilhada e solidária, em fraternidade, em atenção e acolhida do outro, especialmente se é pobre ou necessitado. Em nossas comunidades, sua forte presença tem enriquecido e seguirá enriquecendo a dimensão materna da Igreja e sua atitude acolhedora, que a converte em “casa e escola da comunhão” e em espaço espiritual que prepara para a missão” (DAp, n. 272).
Para evitar a sedução de falsos profetas é fundamental seguir algumas estratégias pastorais apresentadas no Documento de Aparecida e indispensáveis uma formação integral kerygmática e permanente dos discípulos missionários de Jesus Cristo e comunicadores da Verdade: uma formação atenta a dimensões diversas; uma formação respeitosa dos processos; uma formação que contempla o acompanhamento dos discípulos; uma formação na espiritualidade da ação missionária e a Iniciação à vida cristã e catequese permanente. E aos lugares de formação: família, primeira escola da fé; as paróquias, pequenas comunidades eclesiais, os movimentos eclesiais e novas comunidades, os seminários e casas de formação religiosa, a educação católica, os centros educativos católicos, as universidades e centros superiores de educação católica (cf. DAp, n. 279-346)
O Papa Francisco em sintonia com a V Conferência de Aparecida nos convidou a “tecer de misericórdia as tramas dos nossos dias” . Ele exorta que não é o caso de usar as redes sociais para autopromoção. E aqui compreendemos bem que falar a Verdade é fazer o bem, e partilhar os bens e os dons da terra, para que cada pessoa possa viver dignamente. Que não falte com Terra, Teto e Trabalho. Que não se submeta a podres poderes de quem tem acesso e controla as informações para enriquecimento ilícito e dominações promíscuas.
Compreendemos essas “redes” como laços que nos unem no testemunhar daquilo que o Espírito escreve nos nossos corações, ao revelar a cada um que a sua história contém maravilhas estupendas.
Francisco convida a nos confiar a uma Mulher que teceu a humanidade de Deus no seu seio. De fato, a Virgem Maria tudo guardou, meditando-o no seu coração (cf. Lc 2, 19), envolvida pelo Sol da Verdade anunciou que o seu Deus é o Deus que liberta os cativos, denuncia os poderosos e se alegra com seu Deus que fica ao lado dos pobres. Confiante na misericórdia divina, Maria anuncia em seu corpo e na sua mente, a Verdade, as maravilhas de Deus (cf. At 2, 11).