Poderia dizer que conheci Pedro Casaldáliga por acaso. Mas como não acredito no acaso, prefiro dizer que Deus o colocou no meu caminho. Em 2000, preparando um encontro de jovens, assisti o filme O Anel de Tucum (1994), que colocava em discussão uma realidade em que os poderosos sempre conseguiam ter seus direitos atendidos, enquanto a maioria da população pobre, não tinha nenhum direito, e todos que se organizavam e lutavam a favor da vida contra as mazelas sociais, eram perseguidos e assassinados.
Por: Maycon Mazzaro (CNLB Campinas)
Neste filme, Pedro é tratado pelos latifundiários como uma liderança subversiva infiltrada na Igreja Católica e ele mesmo aparece no filme, explicando o significado do anel de tucum: “Anel de Tucum é sinal da aliança com a causa indígena e com as causas populares. Quem carrega esse anel significa que assumiu essas causas… e as suas consequências”.
Pedro, sem dúvida, foi um dos responsáveis pela transformação da minha visão de Igreja. Aos 15 anos de idade comecei a pesquisar sobre sua vida e seu trabalho pastoral, a ler suas obras literárias, seus poemas, ouvir suas profecias. Suas causas me inspiraram e encheram de espiritualidade minha caminhada. Às vezes me pergunto se não foi Pedro uma ferramenta de Deus para a minha conversão. Acredito que sim.
Aos 92 anos de idade, o bispo emérito de São Félix do Araguaia estava internado com problemas respiratórios, potencializados pelo mal de Parkinson, chamado por ele de “irmão Parkinson”, em Batatais, interior de São Paulo, para onde foi transferido no dia 04 de agosto. Muitos sites e blogs já haviam decretado sua morte, o que depois seria desmentido por leigos e religiosos ligados ao bispo. Não sabemos de fato qual a intenção destas pessoas em criar este tipo de notícia, mas, o que sabemos, é que muitas pessoas estavam ansiosas pela confirmação de sua morte. Apenas sua presença física carregava em si um valor extremamente simbólico e um poder de profecia que desafiava aqueles que trabalham diariamente contra os povos indígenas, os marginalizados e a vida da floresta.
Pedro sabia que sua atuação pastoral, intrinsicamente ligada à defesa da vida e da liberdade e à opção preferencial, radical e evangélica pelos pobres, lhe traria consequências. Foi ameaçado de expulsão do país por sua postura combativa contra perseguições e torturas durante a ditadura militar e já teve sua vida na mira de pistoleiros e militares, que chegaram a pensar ter matado o bispo, quando atiraram no padre João Bosco Penido Burnier, em 1976. O bispo nunca teve medo de citar nomes e sobrenomes quando fazia suas denúncias. Embora seja Pedro, costumo comparar seu profetismo a João Batista. Pedro excomungou, simbolicamente, grandes propriedades rurais e se recusava a celebrar a Eucaristia em propriedades dos grandes fazendeiros, pois dizia que não podia ignorar os massacres promovidos por eles e que jamais aceitaria a exibição da Igreja em espaços que pudessem ofender índios, posseiros e peões. Da mesma forma, o bispo dificultava o batizado dos filhos desses fazendeiros na Prelazia: “Para batizar uma criança, pais e padrinhos devem ter fé, participar da comunidade e não podem ser perseguidores. Não pode haver batismo apoiado por quem não acredita na Igreja”, dizia. Para ele, era preferível esperar essas crianças crescerem e buscarem por conta própria o batismo do que batizá-las baseado na fé de quem perseguia os pobres e a própria Igreja.
O que hoje podemos ler e discutir em nossas rodas de conversas e formações, sobre a encíclica papal Laudato Sí, o Sínodo da Amazônia, entre outras iniciativas da Igreja para a defesa das florestas e dos povos originais, já era foco do trabalho do bispo de São Félix há décadas. No início dos anos “70”, sob os fuzis dos militares, a mira dos pistoleiros e a fiscalização da Congregação para a Doutrina da Fé, Pedro denunciou a escravidão no campo, com o documento “Escravidão e Feudalismo no Norte do Mato Grosso”, e apontou qual seria o programa do seu episcopado na carta pastoral “Uma Igreja da Amazônia em Conflito com o Latifúndio e a Marginalização Social”. Criticava abertamente o eurocentrismo da Igreja Católica, suas riquezas e os desvios em relação aos Evangelhos, o que lhe causou censuras da Cúria Romana.
Pedro não se deixou seduzir pelo “poder” e pelas facilidades que o episcopado poderia lhe proporcionar. Embora tenha se tornado bispo apenas em 1971, foi um dos que vivenciaram profundamente o Pacto das Catacumbas, firmado em 1965 por bispos durante o Concílio Vaticano II, com o qual se comprometeram a levar uma vida de pobreza, rejeitar todos os símbolos ou os privilégios do poder e a colocar os pobres no centro do seu ministério pastoral. Comprometeram-se também com a colegialidade e com a corresponsabilidade da Igreja como Povo de Deus, e com a abertura ao mundo e a acolhida fraterna. Dom Pedro decidiu não usar mitra e nem báculo, afirmou sua opção pelos pobres, a defesa dos povos indígenas e o compromisso com os lavradores e sem terras.
Conheci Pedro já no auge dos seus 72 anos e poucos anos antes de sua renúncia à Prelazia, que ocorreu em 2005. O que ficou para mim, para além de suas causas, foi a sensibilidade que demonstrava em suas entrevistas, homilias e, especialmente, nas poesias que tanto escrevia. Era a sensibilidade de quem se deixou moldar pela misericórdia, de quem entendia os caminhos percorridos por Jesus. Nele se concretiza o Novo Mandamento: “Amem-se uns aos outros. Assim como eu amei vocês, vocês devem se amar uns aos outros. Se vocês tiverem amor uns para com os outros, todos reconhecerão que vocês são meus discípulos” (João 13, 34-35). Para Pedro, só o amor dá sentido à nossa caminhada e toda causa defendida, toda luta, só é possível se existir amor.
Pedro faleceu na manhã deste sábado, dia 08 de agosto, tendo vivido intensamente seus 92 anos, 52 deles dedicados à missão pastoral no Mato Grosso. Com certeza foi uma festa seu encontro com Jesus, a quem tanto amou. Mas também deve ter sido muito festejado pelos mártires da caminhada, pelos pequenos assassinados pelas mãos dos poderosos. Sua vontade é ser enterrado no cemitério dos karajás, perto do rio Araguaia, entre um peão e uma prostituta. Será como sempre quis. Sem pompas, apenas ele, sua gente e a terra… e mais nada!