1968 – Início de uma outra História

A década de 60 foi, significativamente, o fim dos velhos costumes enraizados, deliberados pelos mais idosos, dos costumes que vagavam de uma geração à outra, dos pensamentos que podiam ocorrer e aqueles proibidos. A década de 60 vê os jovens tomar para si o destino de suas vidas   e vê também as mulheres deixarem de ser peças de uma ornamentação masculina da casa, da família, da política, da sociedade.

“‘A revolução cultural de fins do século 20 pode assim ser melhor entendida como o triunfo   do indivíduo sobre a sociedade, ou melhor, o rompimento dos fios que antes ligavam os seres humanos em texturas sociais’.(Eric Hobsbaun)

Por: Carlos Signorelli

Nela vivemos o início da era da televisão. Famílias inteiras ficavam horas à frente do aparelho que, inconscientemente, mudava a forma de pensar e agir. Lá fora, o Papa João XXIII teve a coragem de propor uma reflexão profunda na Igreja, com o Concílio Vaticano II. Como lutou? Nem o cumprimentavam na Cúria Romana. Afinal, ele nem pedira autorização para os verdadeiros donos da “verdade” eclesial. Mas a cada dia de debates, a cada documento que soltavam, víamos o quão a Igreja estava aferrada a hábitos, pensamentos, estruturas que foram criados por ela, mas que sua alta cúpula achava terem sido determinados por Deus mesmo. E começamos nós, os católicos, a viver a liturgia e os sacramentos.

Lembremo-nos da invasão russa na Tchecoslováquia, no mesmo 68, porque, simplesmente, Alexander Dubcek queria estabelecer um socialismo sem dominações e sem os tanques soviéticos mostrando quem mandava. E quando estes os invadiram, os tchecos sentiram o mesmo que os húngaros tempos antes.

Foi na década de 60 que o grande Império (do mal?) Americano foi derrotado pelos pequenos vietcongs. Numa guerra na qual antes deles os franceses tinham sito expulsos da terra que não lhes pertencia, agora eram os marines e os moços americanos que morriam às pencas, de tal maneira enquanto de fora torcíamos pela derrota dos americanos, mesmo lá os jovens faziam passeatas, barricadas, para não irem para a guerra da qual, todos sabiam, o retorno era quase impossível, a não ser num caixão.

E foi nesse ambiente, nesse clima, que aconteceu o MAIO 68, do qual comemoramos 50 anos.

Muito embora o movimento dos jovens estudantes parisienses tenha acontecido concomitante com greves operárias, o Maio de 68 não foi iniciado como luta por melhores salários ou algo parecido. Em verdade, foram os jovens que o iniciaram, numa busca nova de liberdade e menos de uma luta contra a burguesia. Não foi um movimento socialista-revolucionário.

Mas é incrível que o movimento de Maio de 68 começou com o que poderíamos chamar de “movimento de 22 de março”,  que foi um movimento dos jovens estudantes que exigiam que a entrada nos prédios masculinos e femininos fossem franqueadas, pois, somente as mulheres podiam entrar nos prédios masculinos, mas esses não podiam entrar nos femininos. Todo o movimento dos estudantes em 68 começou assim.

Alguns ainda se lembram dos “slogans”: “É proibido proibir”; “Chega de perder a vida para ganhá-la”;Cansados de tomar o metrô, trabalhar e dormir.” São frases que questionam o viver sem sentido de quase todos nós, que questionam o viver por viver esperando a morte.

Muito importante foi o momento em que, preparada uma passeata e manifestação, os dirigentes do Partido Comunista Francês e as direções dos sindicatos disseram aos jovens que agora eram eles que tomavam a iniciativa e conduziam a “revolução”. Na verdade, era um dogma da esquerda marxista: quem conduz a revolução contra a burguesia  eram os proletários, ou seja, seus dirigentes. E foi fundamental para o restante da história o “não!” que os jovens disseram. Em verdade, a revolução do Maio de 68, dos jovens parisienses, pensava muito além do econômico.

O Maio de 68 foi refletido em muitos outros países. O pior reflexo foi no México, em Tlatelolco onde em 2 de outubro do mesmo ano foram assassinados entre 200 e 300 estudantes que faziam manifestação na Universidade e nas ruas. E como sempre no México, ninguém foi responsabilizado. No Brasil, estávamos na ditadura militar que, a partir do AI 5 de dezembro de 68 prendeu e matou uma série enorme de homens e mulheres apenas por pensarem diferente do verde-amarelo.

Como dizem muitos, maio de 1968 foi uma revolução cultural. Seus reflexos ainda estão para serem vividos, e nós os vivemos sem que o percebamos. Muito embora alguns teimem em dizer que foi uma revolução abortada, derrotada, cremos, ao contrário, que maio de 1968 está vivo. O caminho foi aberto e as portas