A Igreja vive um tempo especial de renovação, marcado pelo convite a caminhar juntos. A sinodalidade nos recorda que a missão evangelizadora não pertence a alguns, mas é responsabilidade de todo o povo de Deus. Nesse caminho, a Vida Religiosa Consagrada e os cristãos leigos e leigas são chamados a fortalecer vínculos, partilhar dons e construir, em comunhão, uma Igreja cada vez mais próxima da realidade e das pessoas.
A Vida Religiosa possui uma rica história de presença missionária junto aos povos, às comunidades e às realidades onde a vida é mais vulnerável. Seu testemunho de oração, fraternidade, serviço e compromisso com o Evangelho continua sendo um sinal importante para a Igreja e para a sociedade. Ao mesmo tempo, os cristãos leigos e leigas vivem sua vocação no cotidiano: nas famílias, nas comunidades, no trabalho, na educação, na cultura, na política e nos diferentes espaços da sociedade.
É justamente nesse encontro que a sinodalidade ganha rosto concreto.
O Documento de Aparecida nos oferece uma importante inspiração ao afirmar a identidade de todos os batizados como discípulos missionários. A missão não é tarefa exclusiva de ministros ordenados ou de pessoas consagradas. Todos somos chamados a participar da construção do Reino de Deus, cada um a partir de sua vocação, de seus dons e de sua realidade.
Por isso, caminhar juntos significa superar uma compreensão de Igreja baseada apenas na divisão de funções. Significa reconhecer a riqueza da diversidade vocacional e compreender que religiosos, religiosas, sacerdotes, leigos e leigas são companheiros e companheiras de uma mesma missão.
A sinodalidade também nos convida à escuta. Escutar o outro, suas experiências, suas dores, seus sonhos e sua maneira de perceber a presença de Deus na história. Uma Igreja sinodal não é aquela em que todos pensam da mesma maneira, mas aquela que consegue caminhar na diversidade, buscando juntos aquilo que o Espírito Santo suscita para o bem de todos.
Essa perspectiva dialoga profundamente com a tradição da Teologia da Libertação e da Igreja latino-americana, que nos ensinou a olhar para a realidade a partir dos pobres e daqueles que têm sua dignidade ameaçada. A fé cristã não pode ser indiferente diante da fome, da violência, das desigualdades, do racismo, da exclusão e de tantas formas de sofrimento presentes em nossa sociedade.
A opção pelos pobres nos coloca diante de uma pergunta fundamental: onde a vida está ameaçada e como podemos, como Igreja, estar presentes?
É nesse terreno concreto da história que Vida Religiosa e cristãos leigos e leigas podem encontrar um caminho fecundo de colaboração. Religiosos e religiosas trazem sua experiência comunitária, espiritual e missionária. Os leigos e leigas, inseridos nas diferentes realidades sociais, trazem a experiência cotidiana do mundo e a capacidade de atuar em espaços onde a Igreja muitas vezes precisa ampliar sua presença.
Não se trata de substituir vocações, mas de reconhecer sua complementaridade.
A missão se torna mais forte quando conseguimos colocar nossos dons em comum. Quando uma comunidade religiosa abre suas portas para escutar os leigos. Quando os leigos reconhecem e valorizam a contribuição da Vida Religiosa. Quando decisões pastorais são construídas com participação. Quando projetos sociais, ações missionárias e iniciativas de evangelização nascem do discernimento comunitário.
O Conselho Nacional do Laicato do Brasil (CNLB) tem um papel importante nesse processo ao fortalecer a consciência, a participação e a missão dos cristãos leigos e leigas na Igreja e na sociedade. A aproximação com a Vida Religiosa pode contribuir para ampliar espaços de diálogo, formação, espiritualidade, compromisso social e ação missionária.
Em um mundo marcado pelo individualismo e pela fragmentação, testemunhar uma Igreja que trabalha em conjunto é também anunciar o Evangelho. A fraternidade se torna uma forma concreta de evangelização.
Como nos recorda a caminhada da Igreja latino-americana, não basta falar de transformação: é preciso colocar-se a serviço da vida. E isso exige presença, escuta, compromisso e coragem.
A Vida Religiosa e os cristãos leigos e leigas são chamados, portanto, a construir novas formas de parceria, nas quais ninguém seja visto apenas como auxiliar ou colaborador. Somos, antes de tudo, sujeitos corresponsáveis pela missão da Igreja.
Talvez este seja um dos grandes desafios do nosso tempo: deixar de perguntar apenas “o que eu posso fazer?” e começar a perguntar “o que podemos construir juntos?”
É nesse “nós” que a sinodalidade encontra sua força.
Uma Igreja que caminha com os leigos e leigas é uma Igreja que amplia sua presença no mundo. Uma Vida Religiosa que se abre ao diálogo e à corresponsabilidade renova sua missão. E cristãos leigos e leigas que assumem sua vocação transformadora ajudam a Igreja a estar presente nos lugares onde a vida acontece.
Que o Espírito Santo nos ajude a construir uma Igreja mais participativa, fraterna, missionária e comprometida com a justiça e com a dignidade humana.
Que a inspiração de Aparecida, a caminhada da Igreja latino-americana e o testemunho de tantos homens e mulheres que fizeram da fé compromisso com a vida nos ajudem a compreender que o caminho da Igreja só pode ser verdadeiramente sinodal quando ninguém fica para trás.
Caminhar juntos é mais do que uma metodologia pastoral. É uma forma de viver o Evangelho.
Referências bibliográficas
- CELAM. Documento de Aparecida. Brasília: Edições CNBB, 2007.
- CNBB. Cristãos leigos e leigas na Igreja e na sociedade. Documento 105. Brasília: Edições CNBB, 2016.
- CONCÍLIO VATICANO II. Lumen Gentium: Constituição Dogmática sobre a Igreja. Vaticano, 1964.
- FRANCISCO, Papa. Evangelii Gaudium. São Paulo: Paulinas, 2013.
- SÍNODO DOS BISPOS. Documento Final da XVI Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos. Vaticano, 2024.
- GUTIÉRREZ, Gustavo. Teologia da Libertação: perspectivas. São Paulo: Loyola, 2000.