Somos cristãos, leigos e leigas, que impulsionados pelo Batismo participamos da via da Trindade e somos chamados a servir ao projeto salvífico de Jesus Cristo. Nesse projeto assumimos nossa vocação de praticar e dar testemunho da justiça, condição necessária para o desenvolvimento da Fé, que evolui, quando pautada pelo amor, pelo serviço e pela caridade.
Por Marco A. Catanhede
Presidente do CNLB Campinas
“Sobre a ação e atitude do Cristão leigo e leiga no momento Político atual”
A CNBB publicou no dia 10 de Março uma nota sobre o momento atual do País colocando que “a busca de respostas pede discernimento, com serenidade e responsabilidade. Importante se faz reafirmar que qualquer solução que atenda à lógica do mercado e aos interesses partidários antes que às necessidades do povo, especialmente dos mais pobres, nega a ética e se desvia do caminho da justiça”.
O Conselho de Leigos tem também a missão de dialogar com o laicato sobre a inserção do cristão na sociedade e os caminhos para torná-la mais justa e mais fraterna. Nesse sentido nós gostaríamos de convidar a todos os cristãos leigos e leigas a refletir sobre o momento político atual, os riscos e as forças que estão em jogo nesse momento.
Vivemos uma crise ética e moral em nosso país. É claro que a crise não é determinada por um único partido político, mas pela continuidade de uma prática antiga por quem exerce o poder em nosso país. Prática essa que há muitas gerações vem sendo denunciada pelas Pastorais Sociais, pelos Conselhos e vários Organismos de nossa Igreja. Nós já sabíamos! E não foi no último ano que descobrimos e começamos a denunciar casos de corrupção e de injustiça no Estado Brasileiro. Existem muitos mártires cristãos leigos e leigas que perderam a vida e a liberdade nesse caminho de denúncia e luta!
É dentro dessa perspectiva histórica que gostaríamos de refletir com vocês sobre três grandes pontos: a corrupção, as forças políticas e a mídia brasileira.
Sobre a corrupção, esse é um mal que impacta diretamente os pobres e os que dependem diretamente do Estado para obter o mínimo para a sobrevivência. A corrupção é ainda pior em um país como o nosso de tanta injustiça, carência e necessidade. Contudo, ela não é um privilégio do Governo Federal, mas infelizmente está presente em todos os níveis do Estado Brasileiro. Em Campinas, nós fomos testemunhas recentemente de um grande esquema de corrupção, com o envolvimento da SANASA e o poder Executivo do Município. Nós vemos constantemente denúncias envolvendo o Estado de São Paulo, mas que por razões que fogem ao nosso entendimento, são todas arquivadas. Por mais contraditório que pareça, é justamente no âmbito federal que observamos um combate mais rigoroso a corrupção, com grandes empresários e políticos sendo investigados e condenados. Era algo impensável há décadas atrás! Nós queremos e lutamos para que todos que cometam desvios sejam submetidos ao peso da justiça, contando com a presunção da inocência e a possibilidade de ampla defesa.

Sobre as forças políticas, tivemos uma eleição muito apertada que teve desde o primeiro dia do resultado o questionamento de sua validade por parte da oposição. Não houve paz para a montagem de um novo Governo e desde o princípio tivemos falas como: “não iremos dar paz para esse governo”, “iremos sangrar o Governo até 2018”, “esse Governo não pode continuar” e muitas outras. São forças políticas que estão aproveitando uma crise econômica e uma grave crise política, criada dentro do Congresso Nacional, para tomar o poder. O pedido de impeachment tem que ser observado dentro desse contexto. Não acreditamos que o método fiscal conhecido como “pedalada” seja motivo para o impeachment! Principalmente ao analisar o detalhe do ocorrido, em que em um ano de aprofundamento de uma crise econômica, um Governo atrasa o pagamento aos bancos federais para manter programas sociais. Seria essa uma decisão alinhada com nossos ideais ou consideramos motivo para retirada da Presidenta? Se um grupo acha que a Presidenta é corrupta, que se encontre um delito real!
podemos aceitar um Presidente da Câmara, que se declarou como oposição, denunciado por dinheiro não declarado no exterior, conduzir um processo de impedimento da Presidenta por questões fiscais?
Sobre a mídia brasileira, existem momentos decisivos de atuação positiva da nossa mídia, mas existem também ligações obscuras entre donos de jornais/TV com políticos e grandes grupos econômicos que fazem com que a mídia se coloque a serviço dessas pessoas e não do país. Nós, cristãos leigos e leigas, temos que ter clareza sobre isso! Alguns telejornais de grande visualização e revistas de grande circulação estão claramente selecionando notícias, dramatizando conteúdos, convocando pessoas para atos públicos e pouco a pouco contribuindo para que fiquemos totalmente desacreditados no Brasil e nos brasileiros. O medo e a descrença vem sendo direcionados para um partido político, enquanto outros grupos políticos vêm sendo poupados.
A complexidade da situação atual aumenta muito quando misturamos a injustiça da corrupção, as antigas forças políticas do Brasil, o papel da mídia ligada aos grupos políticos/econômicos, a crise econômica atual e a demanda da população por melhores serviços públicos. Essa complexidade é um prato cheio para quem quer confundir e manipular a todos nós!
Nós conhecemos muito bem a “solução”, ou enganação, que tenta nos induzir a acreditar que o problema está em uma pessoa ou grupo de pessoas, que uma vez fora do poder, voltamos a uma normalidade. Mas que normalidade!?! Provavelmente por ter rompido com uma normalidade vigente há séculos que agora é possível denunciar, apurar, julgar, distribuir, incluir e avançar.
Nós observamos também várias notas de Organismos da Igreja, Pastorais, Movimentos Sociais, ONGs, intelectuais e artistas reafirmando serem contra a corrupção e também contra o impeachment dentro da situação atual (pedaladas fiscais, Presidência da Câmara, PMDB, oposição e etc.). Existe o risco de fragilizarmos a nossa democracia, caso o congresso siga com um impeachment nessas condições. O CNLB, em suas diferentes instâncias (Nacional, Regional e Arquidiocesano) une-se a essas várias iniciativas e manifestações.
Nosso pedido aos Cristãos Leigos e Leigas é que participem ativamente desse processo político atual, que busquem olhar a histórica e não somente os últimos dias, que tentem conversar com pessoas que pensam um pouco diferente de vocês. Respeitemos as visões contrárias, desconfiemos de “salvadores da pátria” e pensemos em como construir pontes para um novo amanhã. Nós não seremos um país melhor se não soubermos conviver com pensamentos contrários aos nossos, sejam ditos de esquerda ou de direita ou de centro. A democracia se realiza na disputa sadia e no respeito à Constituição entre as várias visões e forças existentes.
Nós iniciamos e agora encerramos com a Nota da CNBB, pois como Cristãos temos uma preferência evangélica: OS POBRES. “ … qualquer solução que atenda à lógica do mercado e aos interesses partidários antes que às necessidades do povo, especialmente dos mais pobres, nega a ética e se desvia do caminho da justiça”. Gritar para que todos ouçam, que também nos rostos que nos causam medo ou repulsa, está o rosto sofrido de Deus.
Por fim, como cristãos e cristãs que somos, nos colocamos a caminho e rogamos a Deus por sabedoria. Nele, e com ela, é possível acreditar num outro mundo possível. Impulsionados pela fé e iluminados pela Palavra Viva, ter coragem de gritar o Amor Misericordioso de Deus, em nossas atitudes, gestos e palavras, vivendo o anúncio do Reino definitivo.
Campinas, 11 de Abril de 2016.