Qual a missão do laicato na Igreja do Brasil? Essa foi uma das reflexões do colóquio “O laicato nas novas Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil”, realizado neste mês de setembro pelo Conselho Nacional do Laicato do Brasil (CNLB), no contexto do jubileu de 50 anos do organismo.
O evento contou com a participação de Sônia Gomes de Oliveira, integrante da Assembleia do Sínodo sobre a Sinodalidade; de Dom Leomar Antônio Brustolin, arcebispo de Santa Maria (RS) e presidente da Comissão da CNBB responsável pela atualização das Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora (DGAE); além de Dom Paulo Renato Fernandes Gonçalves de Campos, bispo de Barra do Garças (MT); Dom Pedro Carlos Cipollini, bispo de Santo André (SP); e Mariana Aparecida Venâncio, assessora da Comissão Episcopal Pastoral para a Animação Bíblico-Catequética. Participaram ainda presidentes dos regionais do CNLB, lideranças do laicato, bispos e assessores da CNBB.
Dom Leomar destacou que a revisão das Diretrizes acontece em sintonia com o processo global do Sínodo da Sinodalidade e busca traduzir esse caminho para a realidade da Igreja no Brasil. “As Diretrizes são fruto de uma escuta ampla, que envolveu bispos, leigos, consagrados e coordenadores de pastoral. Elas querem ser um texto de unidade, mas não de uniformidade. A Igreja precisa valorizar a diversidade e, ao mesmo tempo, manter a comunhão na missão”, afirmou. Segundo ele, a missão é o eixo transversal do documento.
Já Sônia Gomes de Oliveira trouxe ao debate sua experiência como participante da Assembleia Sinodal em Roma. Para ela, as Diretrizes representam uma oportunidade de conversão pastoral, mas exigem coragem. “Ainda não somos uma Igreja sinodal. Há seletividade, há exclusão, há muitos que ficam para trás. A sinodalidade exige comunhão, participação e missão como pilares, mas isso só acontece se todos forem reconhecidos na sua dignidade batismal”, afirmou.
Um dos pontos centrais de sua fala foi a necessidade de enfrentar o clericalismo. “O clericalismo não é apenas um problema dos padres, mas também dos leigos, porque só existe clericalismo quando ele é alimentado. As Diretrizes precisam ajudar a superar essa mentalidade, promovendo ministérios laicais que estejam a serviço da comunidade, não do padre ou do bispo”, defendeu. Ela ressaltou ainda que o documento deve prever investimento em formação do laicato, inclusive com recursos financeiros, e que a formação deve ser pensada para todos, inclusive seminaristas, numa perspectiva sinodal. “É fundamental compreender os ministérios laicais — como o leitorado, o acolitato e o de catequistas — como serviço à comunidade eclesial. Esse é um ponto crucial para a caminhada da Igreja”, enfatizou.
Sônia também reiterou que as Diretrizes se sustentam na eclesiologia do povo de Deus e preveem um forte protagonismo dos fiéis leigos. “Os sujeitos da missão são muitos: leigos, crianças, jovens, mulheres, idosos, enfermos, migrantes, vida consagrada e ministros ordenados. E os caminhos dessa missão passam pela iniciação à vida cristã, pelas comunidades de discípulos missionários, pela liturgia e piedade popular, além do cuidado das fragilidades humanas e da casa comum”, explicou.
A importância da participação laical também foi reforçada por Mariana Aparecida Venâncio, assessora da dimensão bíblica da Comissão Episcopal para a Animação Bíblico-Catequética da CNBB, que apresentou a simbologia da tenda como imagem principal das novas Diretrizes. “A tenda é um sinal de mobilidade, abertura e acolhida. Ela nos ajuda a compreender a Igreja como comunidade em movimento, que arma sua morada entre nós e caminha com o povo. Esse símbolo traduz bem a proposta de uma Igreja que quer ser mais próxima e sinodal”, afirmou.
As contribuições sistematizadas no colóquio serão enviadas à comissão de redação até novembro, compondo o processo que deve culminar com a aprovação final das Diretrizes em 2026. Para Dom Leomar, esse é um processo histórico: “Nunca tivemos um texto das Diretrizes tão participativo. A presença do laicato é fundamental para que a Igreja no Brasil seja, de fato, sinodal e missionária.”