Goiânia (GO) – Os desafios da democracia, a persistência das desigualdades sociais e o compromisso da Igreja com os clamores dos pobres e da Terra estiveram no centro da análise de conjuntura conduzida pela assessora da Comissão Episcopal para a Ação Sociotransformadora (Cepast) da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), Alessandra Miranda, nesta quinta-feira (4), durante a 44ª Assembleia Geral do Conselho Nacional do Laicato do Brasil (CNLB), em Goiânia.
Com o tema “Por onde andam os pés, os corpos sentem”, a assessora propôs aos participantes uma reflexão que articulou os desafios da realidade brasileira e mundial com a missão evangelizadora dos cristãos leigos e leigas. Ao longo da exposição, destacou que a leitura da conjuntura deve partir da realidade concreta das pessoas que sofrem as consequências da pobreza, das desigualdades, do racismo, da violência e das diversas formas de exclusão.
Alessandra apresentou dados e reflexões sobre a concentração de renda no Brasil, os impactos da financeirização da economia, a redução de investimentos em políticas públicas e o crescimento de discursos autoritários em diferentes partes do mundo. Também abordou questões relacionadas ao racismo estrutural, à violência contra as mulheres, à mercantilização da fé e aos desafios enfrentados pelas democracias contemporâneas.
No entanto, a assessora enfatizou que a análise da realidade não pode permanecer apenas no diagnóstico social e político. Para ela, a Igreja e o laicato são chamados a discernir seu papel diante das transformações do tempo presente e a fortalecer sua atuação em defesa da dignidade humana, dos direitos humanos e da justiça social.
Inspirada pela Doutrina Social da Igreja e pelo magistério do Papa Francisco, Alessandra recordou que a missão dos cristãos passa pela escuta dos clamores dos pobres e da Terra, pelo compromisso com a Casa Comum e pela construção de relações sociais mais justas e solidárias. Segundo ela, a fé cristã não pode ser indiferente às estruturas que produzem exclusão e sofrimento.
A reflexão também voltou o olhar para dentro da própria Igreja. Em um dos momentos mais marcantes da exposição, a assessora provocou os participantes a refletirem sobre suas práticas pastorais e comunitárias. “Olhamos para nós mesmos?”, questionou, ao abordar a necessidade de avaliar se as estruturas eclesiais favorecem a participação, a inclusão e o protagonismo de todos os sujeitos que compõem o povo de Deus.
Nesse sentido, Alessandra convidou o CNLB a refletir sobre o lugar das mulheres, dos jovens, das pessoas negras, das pessoas com deficiência e das pessoas LGBTQIA+ nas comunidades e espaços eclesiais. A assessora ressaltou que uma Igreja comprometida com o Evangelho deve buscar formas concretas de acolher a diversidade e combater as exclusões que ainda persistem em diferentes ambientes.
Outro ponto destacado foi a necessidade de fortalecer uma espiritualidade libertadora, capaz de unir fé e compromisso social. Para Alessandra, a experiência cristã deve impulsionar os fiéis a serem protagonistas da transformação da sociedade, especialmente diante dos desafios políticos, econômicos e culturais que marcam o contexto atual.
Ao concluir sua fala, a assessora reforçou a importância de que o CNLB continue sendo um espaço de articulação, formação e incidência dos cristãos leigos e leigas na sociedade brasileira. O compromisso com a democracia, a justiça social, a inclusão e a defesa da vida, afirmou, constitui uma dimensão inseparável da vocação e da missão do laicato.
A análise de conjuntura integrou a programação da 44ª Assembleia Geral do CNLB, que reúne representantes de todo o país para refletir sobre os desafios da missão dos cristãos leigos e leigas e fortalecer sua atuação na Igreja e na sociedade.