COVID-19 e a Urgência de Solidariedade

Quando entramos em 2020 mal podíamos imaginar que nossas mais negativas previsões seriam superadas em escala gigantesca. As preocupações no amanhecer do novo ano eram o aperto da crise econômica.

Por: Maycon D. Mazzaro

Com mais de 13 milhões de desempregados, as queimadas de nossas florestas, os incontáveis retrocessos no campo social, a degradação das relações sociopolíticas e interpessoais, causada pela polarização ideológica, patrocinada pelo chamado “gabinete do ódio” do governo federal, e pelos individualismos exacerbados de uma sociedade capitalista doentia, a escalada da violência nos principais centros urbanos e os frequentes desastres naturais, provocados pela exploração irresponsável do meio ambiente.

Contudo, nosso maior desafio veio em forma de um vírus, imprevisível e microscópico. Que, no melhor “estilo medieval”, nos coloca em quarentena, a todos nós, sem distinção de espécie alguma. O mais novo inimigo da humanidade, além de colocar em xeque os sistemas de saúde em quase todos os países, também nos aprisiona em nossas casas, em nossas incertezas e individualidades, questionando a nossa capacidade de nos relacionar e, principalmente, de cuidar do outro.

Aliás, muitas pessoas têm dado exemplo de empatia e preocupação com o próximo, seja no âmbito das doações de alimentos e materiais de higiene, no trabalho voluntário, na oração ou, simplesmente, evitando sair de casa para não espalhar o vírus. Muitos empregadores têm feito sua parte, dispensando seus funcionários do trabalho presencial, adiantando férias e se preocupando com o bem-estar de quem produz seus lucros ou de quem mantêm suas casas limpas e seguras. Infelizmente, toda moeda tem dois lados. Por incrível que pareça, o lado mais sórdido de algumas pessoas tem sido apresentado neste momento de luta contra um inimigo que deveria ser comum. Grupos econômicos, empresários e certos políticos se transformaram em verdadeiros “anjos da morte”, que viralizam notícias falsas sobre a pandemia, desacreditam as principais autoridades sanitárias e fazem o povo, quem mais sofrerá as consequências desta crise, acreditar que este vírus é inofensivo, que precisa trabalhar para o país não parar.

É mais que perceptível que este sistema está falido. Sim, nossas crenças falharam: no livre mercado, no capitalismo explorador e improdutivo dos bancos, na redução de direitos, na “idolatria” do dinheiro, que compra tudo e todos, no individualismo em detrimento do coletivo, na mais abominável “coisificação” das pessoas. E neste cenário, o alento, o cuidado e a proteção devem vir do Estado. Todo esforço da máquina pública deveria ser em função de garantir o direito à saúde da população, sem distinção, mas, em especial, dos mais empobrecidos e vulneráveis de nossa sociedade. O Sistema Único de Saúde é a prova de que o Estado pode cuidar de todos. Embora muitos tenham o desejo de implodi-lo, o SUS, com todos os seus profissionais, persevera e, junto a grandes hospitais, universidades públicas e de cientistas brasileiros, igualmente vítimas do descaso governamental, acolhe e cuida do nosso povo. Outro Sistema Único, o da Assistência Social (SUAS), que tão pouco é mencionado, também é um instrumento de acolhida e proteção em nossas cidades neste tempo de pandemia, atendendo a parcela mais fragilizada da nossa população, que convive com a miséria e os riscos dela decorrentes todos os dias.

Porém o Estado sofre com a incompetência e o obscurantismo de seus governantes. O Presidente da República segue sendo o que sempre foi: um promotor da morte. Seus gestos belicosos, seus discursos agressivos contra os trabalhadores, os pobres, as mulheres, os indígenas, os homossexuais, somam-se, agora, em meio a esta crise, a seus pronunciamentos que tentam minimizar a gravidade do Covid-19, pedindo para que as pessoas voltem a circular, afrontando todas as recomendações médicas e sanitárias, da OMS e, inclusive, do seu próprio Ministério da Saúde. É corriqueiro vê-lo saindo às ruas, cumprimentando as pessoas com apertos de mãos, abraços e tirando selfies, além de não desencorajar, como todo chefe de Estado sério, as várias manifestações que pedem o fim da quarentena.

Evidentemente, ele tem razão quando diz que os efeitos desta crise para a economia serão devastadores. Sim, milhares de pessoas sofrerão os impactos da paralização econômica, como o aumento do desemprego e a perda de renda para alimentação e moradia, por exemplo. Mas a prioridade do Estado deve ser salvar vidas, inicialmente contra o inimigo vírus, tomando todas as medidas possíveis para que ele não se propague. Concomitantemente, deve assumir o compromisso de garantir a subsistência da população e apoiar as empresas brasileiras na recuperação de sua capacidade produtiva. 

Sem dúvida, esse é um tempo difícil e o que está por vir é incerto e temeroso, mas não podemos deixar de refletir sobre a oportunidade que se apresenta. É nosso desejo manter este sistema tão perverso, especialmente com os mais pobres, onde poucos têm tudo e a grande maioria tem tão pouco? Queremos continuar vivendo em uma espécie de carpe diem eufórico, um consumismo e uma busca pelo prazer que pareciam permanentes, até que o presente, tão desafiador, se tornou insuportável? A quarentena, coincidentemente neste tempo de quaresma, pode ser o motor de partida para a mudança, o elemento unificador de todas as pessoas que acreditam que ela é necessária, que não podemos mais conviver com tanta irresponsabilidade, injustiças e abismos sociais. Assim como no conto de Albert Camus – a Peste – todo este sofrimento pode fazer surgir a reflexão sobre nossa fragilidade, sobre como somos utilizados pelos poderosos e a urgente necessidade de uma irrestrita solidariedade entre nós.  A pandemia vai passar, vamos ter perdido pessoas queridas, enfrentaremos as mais diversas dificuldades, mas teremos a oportunidade de responder ao destino: o que queremos para a nossa vida? Como queremos reconstruir nossa sociedade? Quem sabe sairemos desta crise, tão destrutiva, como um novo povo, uma nova nação.