O Decreto Apostolicam Actuositatem, sobre o Apostolado dos cristãos leigos e leigas, completa 60 anos nesta terça-feira (18). Promulgado há seis décadas, o texto não apenas reconheceu a importância do laicato, mas estabelece como direito e dever de todo cristão batizado ser protagonista ativo na missão evangelizadora da Igreja.
Publicada em 18 de novembro de 1965, nos últimos dias do Concílio Vaticano II, a Apostolicam Actuositatem surgiu em um contexto de profunda renovação eclesial. A Igreja buscava novas formas de diálogo com o mundo moderno e reconhecia a necessidade de valorizar a presença dos fiéis leigos nas transformações sociais e culturais em curso. Foi nesse clima de aggiornamento que o decreto consolidou uma visão mais participativa e corresponsável do laicato, chamando todos os batizados a assumirem sua missão com maturidade e liberdade evangélica.
A vocação inerente: protagonismo por natureza
O Decreto Apostolicam Actuositatem é categórico ao afirmar que o apostolado dos cristãos leigos e leigas “deriva da própria vocação cristã, jamais poderá faltar na Igreja”. Segundo o documento, é por meio do Batismo e da Confirmação que o fiel é inserido no Corpo Místico de Cristo e fortalecido com o Espírito Santo, participando do múnus sacerdotal, profético e real.
Dessa união com Cristo, surge a responsabilidade de levar a fé ao mundo. O protagonismo laical, portanto, não é uma concessão ou um “favor” da Hierarquia, mas sim um direito e um dever inerente à própria condição de batizado, fundamental para a plenitude da vida eclesial.
O mundo: o campo de missão próprio do laicato
A contribuição mais específica e crucial dos cristãos leigos e leigas, conforme a AA, reside na sua ação na ordem temporal. É missão dos batizados “impregnar e aperfeiçoar a ordem temporal com o espírito do Evangelho”.
Isto significa atuar diretamente na família, na cultura, na economia, nas instituições políticas e nas relações sociais, áreas em grande parte acessíveis apenas a eles. Os cristãos leigos e leigas são convocados a usar sua “competência específica e a própria responsabilidade” para que a justiça do Reino de Deus se manifeste em todas as esferas da vida humana e social.
O CNLB e a resposta ao clamor conciliar
O contexto pós-conciliar clamava pela formação de um “laicato cristão maduro”, consciente de sua vocação e disposto a uma ação evangelizadora organizada no mundo. Essa necessidade encontrou motivação profética na visão do próprio Concílio, como no Decreto Ad Gentes (n. 21), que afirmava: “A Igreja não está verdadeiramente formada, nem vive plenamente, nem é representação perfeita de Cristo entre as pessoas enquanto não exista e trabalhe com a hierarquia um laicato propriamente dito”.
Em resposta a esse chamado, foi realizada a Assembleia para a constituição do CNL – Conselho Nacional de Leigos – em novembro de 1975, que votou um Estatuto experimental. Em julho de 1976, na Casa da Legião de Maria, no Rio de Janeiro, a Segunda Assembleia Geral ratificou as deliberações e estabeleceu definitivamente o CNL (hoje CNLB – Conselho Nacional do Laicato do Brasil), com o foco em sua identidade, vocação, espiritualidade e missão.
O Apostolicam Actuositatem completa 60 anos como o marco de uma Igreja que reconhece o cristão leigo e leiga como sujeito eclesial e missionário insubstituível. A celebração é um convite renovado para que todo batizado assuma plenamente sua missão e seja fermento do Evangelho na sociedade.
Na prática, o protagonismo laical se expressa em múltiplas frentes. Na Igreja, cristãos leigos e leigas atuam como catequistas, ministros da Palavra e da Eucaristia, animadores de comunidades, agentes da Pastoral Social, leitores, coordenadores pastorais e lideranças de pequenas comunidades. Na sociedade, assumem presença transformadora na política, na educação, na comunicação, nas organizações sociais e nos espaços de defesa dos direitos humanos.
Além disso, muitos se dedicam às chamadas “fronteiras da missão”: o enfrentamento ao racismo, a promoção da diversidade e da inclusão, a luta por moradia, o cuidado com a Casa Comum e a defesa dos povos tradicionais. Em todas essas áreas, o laicato testemunha que a fé cristã é inseparável do compromisso ético com a justiça, a dignidade humana e a construção do bem comum.