Documento 105 completa 10 anos: laicato como sujeito eclesial e agente de transformação social

As reflexões que marcam os 10 anos do Documento 105 da CNBB“Cristãos Leigos e Leigas na Igreja e na Sociedade” — foram apresentadas durante uma live especial promovida pelo Conselho Nacional do Laicato do Brasil (CNLB), que reuniu presidentes e ex-presidentes do organismo, além do bispo referencial para o laicato. A atividade deu início ao ciclo comemorativo de uma década do documento, considerado uma das principais referências para a compreensão do protagonismo laical na Igreja no Brasil.

No encontro virtual, realizado pelo CNLB, foram retomados os principais eixos do Documento 105 — a afirmação do laicato como sujeito eclesial, o enfrentamento ao clericalismo e o compromisso com a transformação da realidade social —, destacando sua atualidade diante das crises democráticas, do aumento das desigualdades e dos desafios colocados à sinodalidade.

O documento, aprovado em 2016 pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), orienta a missão dos cristãos leigos e leigas tanto no interior da Igreja quanto nos diversos espaços da sociedade, reforçando sua corresponsabilidade na evangelização e na construção do bem comum.

Um marco na teologia do laicato

Para o atual presidente do CNLB, Márcio Oliveira, celebrar os 10 anos do Documento 105 é reconhecer um marco que consolidou o laicato como protagonista da missão eclesial. Segundo ele, o texto permanece atual ao afirmar que os cristãos leigos e leigas não são meros colaboradores, mas sujeitos ativos da Igreja, especialmente em contextos marcados por desigualdades, exclusão social e fragilização da democracia.

Laudelino Augusto, presidente do CNLB durante o processo de elaboração do documento, recordou na live que sua construção está diretamente ligada à Conferência de Aparecida (2007), quando os bispos latino-americanos afirmaram que todo o laicato é um verdadeiro sujeito eclesial. O processo de redação durou cerca de três anos, contou com ampla participação de expressões laicais de todo o país e recebeu centenas de emendas antes de sua aprovação final, em 2016.

“O Documento 105 não envelheceu; pelo contrário, tornou-se ainda mais necessário diante das crises políticas, sociais e culturais que vivemos”, afirmou Dom Giovani Pereira de Melo, bispo referencial para o laicato e presidente da Comissão Episcopal para o Laicato da CNBB, durante a atividade.

Superar o clericalismo: um desafio permanente

A superação do clericalismo foi apontada na live como um dos desafios centrais para a efetivação do Documento 105. Para Marilsa Chuína, que presidiu o CNLB entre 2013 e 2019, o clericalismo é uma “praga” que desfigura a missão da Igreja e impede o pleno exercício da vocação laical.

Segundo ela, o lugar próprio da atuação dos leigos e leigas é o “vasto e complicado mundo” da política, da economia, da educação e da saúde. “A política é o melhor lugar para se fazer a caridade”, afirmou, ao alertar para o risco de um laicato restrito às estruturas internas da Igreja e distante dos processos de transformação social.

Dom Giovani reforçou essa crítica ao questionar, durante o encontro, onde estão os cristãos leigos organizados e comprometidos com a transformação da realidade. Ele alertou que, em muitas comunidades, ainda prevalecem modelos eclesiais centrados exclusivamente no clero, sem conselhos e instâncias reais de participação.

Sinodalidade e formação

Outro eixo destacado durante a live foi a relação entre o Documento 105 e o atual processo sinodal vivido pela Igreja. Para Sônia Gomes de Oliveira, presidente do CNLB entre 2019 e 2025 e participante do Sínodo sobre a Sinodalidade, realizado em Roma, “falar de sinodalidade sem valorizar o laicato é uma contradição”.

Ela destacou que o Documento 105 já nasce de um método sinodal, baseado na escuta, no discernimento comunitário e na participação ampla. No entanto, apontou que a formação continua sendo um dos principais gargalos: enquanto muitos leigos e leigas estudaram e assumiram o documento, o mesmo não ocorreu de forma sistemática entre setores do clero, o que contribui para a manutenção de estruturas eclesiais fechadas e conservadoras.

Rumo a 2026: Assembleia Geral e novos projetos

A live também apresentou os próximos passos das celebrações. O ano de 2026 será inteiramente dedicado à redescoberta e ao aprofundamento do Documento 105. Segundo anúncio feito por Márcio Oliveira durante o encontro virtual, o texto servirá de base para a 44ª Assembleia Geral do CNLB, que acontecerá de 4 a 6 de junho de 2026, em Goiânia, com o tema: “Cristãos leigos e leigas no coração do mundo: chamados a ser Igreja profética e servidora”.

Entre as iniciativas previstas estão:

  • a publicação de um texto sobre o legado do Documento 105, de autoria de Laudelino Augusto, Marilsa Chuína e Geraldo Aguiar;
  • a realização de um curso de aprofundamento em parceria com a Faculdade Católica;
  • a produção de séries de vídeos e artigos sobre temas centrais, como a autonomia do laicato e o Ensino Social da Igreja.

Ao final da live, os participantes reforçaram o chamado à ação presente no Documento 105. Como foi lembrado na abertura do encontro, ser “sal da terra” exige uma presença discreta, mas transformadora, capaz de dar sabor cristão às relações sociais e de assumir, sem medo, o compromisso com a justiça, a democracia e a dignidade humana.

Assista a live completa: