E o meio ambiente?

Desde as décadas de 1950-60 quando a chamada Revolução Verde apresentou-se no Brasil, os temas do meio ambiente, da natureza, da biodiversidade e dos cuidados com a fauna e flora do país, foram cooptados pelo ideal capitalista de tratar tudo como mercadoria.

Por Rodolfo Medina

Árvores, minério, água deixam de ser tratados como parte do nosso ecossistema de sobrevivência humana e são tidos como recursos naturais. Ou seja, algo que se pode explorar para o consumo, a produção de bens materiais e a manutenção do sistema econômico vigente.

No dia de hoje, 5 de junho, que motivos temos para comemorar o Dia Mundial do Meio Ambiente?

O meio ambiente começa a ser visto como empecilho para o desenvolvimento econômico do país, e seus defensores como agentes contrários a este desenvolvimento. Falácias que ouvimos e vemos cotidianamente nos veículos de informação, nas falas de políticos, sobretudo os envolvidos com as bancadas do boi (ou ruralista), da bala e da bíblia. A serviço dos lucros das empresas envolvidas com a extração destes “recursos naturais”, a política brasileira já se mostrou a caminho da destruição do seu próprio habitat em função de algumas cifras a mais na conta bancária destes.

Em agosto do ano passado a humanidade atingiu a marca de ter consumido todos os recursos naturais que estariam disponíveis para aquele ano. Ou seja, no mês 8 de 12 havíamos acabado com os recursos naturais disponíveis para o ano. Diversos líderes mundiais, inclusive o Papa Francisco, estão atentos às questões ligadas à preservação da natureza e uma melhor convivência entre seres humanos e a Casa Comum. E neste momento de pandemia, além de fortalecer este cuidado, somos provocados a pensar sobre tudo isso. Será que o nosso modelo de produção e consumo não é responsável por esta doença? Será que não é o momento de parar com o desmatamento e com o mau uso da água? Diversas perguntas nos acompanham nestas reflexões.  

Junto desta extração desenfreada constroem-se falácias para defender o uso indiscriminado do solo, da água, das árvores em função do consumo-desejo-consumo, em um sistema que já se mostrou improdutivo e incompatível com o Meio Ambiente.

Se vende a ideia de que para produzir alimentos para toda a humanidade é necessário o uso de agrotóxicos, mas não explicam a especulação do uso do solo e para quê serve a produção do “agro pop”. Estes produtos químicos eram usados como armamentos biológicos nas grandes guerras, e, sem mercado quando estas acabaram, tornou-se produto de consumo no campo. A venda de alimentos está atrelada à compra destes venenos, pelo pequeno produtor, por exemplo. Não conseguem crédito sem comprar o “pacote de veneno”.

Em torno de 70% dos alimentos consumidos por nós é oriundo da agricultura familiar, seja ela de base agroecológica (que não usa agrotóxicos em sua produção, e trabalha em simbiose com o meio ambiente) ou usual do sistema convencional de produção (com uso de venenos). E esta comida é produzida em 24% das terras agriculturáveis do país. O restante está nas mãos do hidroagronegócio, que de pop só tem o slogan.

Contando com 23% de produção de transgênicos, o Brasil fica atrás somente dos EUA, todavia é o país que mais consome agrotóxicos no mundo – cerca de 5 litros por pessoa por ano. Além disso, estes venenos, em boa parte (44% deles) são proibidos no mercado europeu, por motivos como a ligação entre o consumo de venenos e a aquisição de doenças (câncer, por exemplo), e a degradação do solo e do meio ambiente ao redor da produção.

Infelizmente não é com isso que o governo brasileiro está atento. Em meio a crise na saúde, por necessidades de um cuidado com uma pandemia global, em uma reunião ministerial, apresentam-se ordens para que projetos de flexibilização da posse de terras, das demarcações de terras indígenas, em conluio entre Ministério da Agricultura e Ministério do Meio Ambiente, sejam passados aproveitando a distração da população e da mídia. Pessoas que eram para, teoricamente, defender o meio ambiente da exploração desenfreada, são aquelas responsáveis pela própria destruição. Em nome do quê? Em favor de quem? Guardando os interesses de qual parte? O Brasil é o país responsável por um terço do desmatamento de florestas virgens em 2019. O ano em que se viram queimadas recordistas na Amazônia. O ano que teve motivação especial do Papa Francisco para este cuidado, em Sínodo.

Estamos atentos à privatização da água? Estamos atentos às necessidades dos povos originários? Estamos atentos aos discursos desafiadores dos líderes políticos sobre a temática?

Quais serão as atitudes individuais que poderemos tomar para mudarmos esta situação? Quais podem ser as atitudes tomadas em coletivo? Como cobrar o poder público? Como tratarmos da conscientização?

O Meio Ambiente pede nosso auxílio, e precisamos de políticas públicas que garantam este cuidado. Sabendo disso, muitos agentes da sociedade civil estão se organizando em um Fórum Popular da Natureza, inclusive com participação de muitas pessoas do CNLB a nível nacional. E como não tenho a pretensão de esgotar o assunto convido você a acompanhar as atividades pelo site do Fórum, e continuarmos a reflexão: forumdanatureza.org.br. De 01 a 10 de junho está acontecendo o lançamento oficial, com oficinas, palestras e atividades, todas online para resguardo do distanciamento social.

E o meio ambiente? Importa?

Rodolfo Medina é professor efetivo de Filosofia do Estado de São Paulo, especialista em Educação para Inserção Social, membro do Conselho Nacional do Laicato do Brasil, na arquidiocese de Campinas/SP e do Fórum Popular da Natureza, núcleo Campinas/SP – contato: rmedina@prof.educacao.sp.gov.br