Dizer cultura é afirmar a condição mais essencial do ser humano. Nem tudo em nós é programado geneticamente. Há outras heranças que excedem as tramas biológicas complexas que tecem a existência. O modo plural de viver e morrer é algo que toda pessoa recebe ao entrar no mundo e isto a condiciona em suas experiências, das mais básicas (comer, beber, banhar…) às mais complexas (unir-se a uma outra pessoa, por exemplo).
Por Márcio Antonio Ferreira Pimentel
Deste modo, mais do que afirmar algo sobre a cultura, é necessário tratar da realidade inquestionável do ethos cultural. Falar em ethos (de onde, ética) é tomar contato com o resultado da intersecção entre a pessoa humana e o contexto no qual vem-a-ser. Particularmente, gosto de pensar na imagem do ‘ninho’ para entendê-lo em sua acepção mais fundamental.
A ideia de ethos como ninho, na verdade, está na própria origem do termo, inicialmente tomado da língua grega. Quando a filosofia se apropria desta palavra, configura a ela um sentido preciso. Optamos, aqui, por aquele ofertado por Aristóteles em sua Ética a Nicômaco, em que a ética é concebida como caminho para a felicidade. Por felicidade, se conceberá a finalidade para a qual todo ser humano marcha – ainda que por caminhos distintos, a depender de sua formação e experiências (o filósofo dirá, pelo intelecto e costumes). Enfim, nesta acepção, a felicidade é algo tipicamente humano, pois não podem um boi ou um burro serem felizes.
Ao tratarmos do ethos cultural, nesta perspectiva, o concebemos como a maneira singular com a qual cada povo, em sua interação com o mundo no qual está situado, elabora a finalidade de sua própria vida. Elabora enquanto vive e até que morra. É um ‘ninho’ nunca totalmente pronto, ao qual se acrescentam ou retiram galhos. Isto que significa que, mudam as árvores, altera-se o ninho e, efetivamente, quem o habita. Assim como um pássaro sem ninho não tem chances de sobreviver, não se poderia pensar em sermos humano sem o construto cultural. E aqui, a norma dada por Aristóteles de que o arquiteto e o lirista tornam-se tais pela pratica de suas especialidades, também cabe às pessoas em relação à sua humanidade: são humanas à medida que vivem humanamente. A cultura é – em suma – esse devir que ‘fabrica’ o humano.
Cultura e Evangelho
Recentemente, o Papa Francisco retomou um dos temas clássicos da vida cristã: a santidade. Em sua carta Gaudete et Exsultate, sempre que fala de cultura (e explicitamente o faz poucas vezes), atrela à busca das pessoas de alcançarem a felicidade. Para ele, esta última coincide com a própria santidade. Por essa razão, opta por delinear o ethos cristão a partir das bem-aventuranças. Deste modo, a santidade será o modo próprio de tornar-se humano a partir do Evangelho de Jesus.
Nesta ótica, retoma-se as intuições da Igreja Católica depois do Concílio Vaticano II, ao tratar das culturas e de seu lugar no processo de santificação que, como dito, para Francisco coincide com a verdadeira humanização, uma vez que esta elabora em nós o “novo ser humano” reconhecido na pessoa de Jesus de Nazaré. Assim, há 30 anos, quando a Comissão Teológica Internacional afirmava o imperativo da inculturação para a missão evangelizadora da Igreja, fazia coincidir a diversidade cultural com a humanidade de Jesus: “Apoiando-se na convicção de que ‘a encarnação do Verbo foi também uma encarnação cultural’, o Papa [João Paulo II] afirma que as culturas, analogicamente comparáveis à humanidade de Cristo naquilo que têm de bom, podem desempenhar uma função positiva de mediação para a expressão e irradiação da fé cristã.”[1]
Liturgia e Cultura
A inculturação não é um tema restrito à dimensão cultual da fé cristã. No entanto, porque as celebrações são a atividade da Igreja que melhor a exprimem, é neste âmbito que encontraremos as ressonâncias mais significativas do impacto causado pela evangelização na vida dos crentes. Como escreve Orígenes contra Celso (sec III), cada povo ora e louva a Deus conforme pode e segundo a língua que lhe é própria, os gregos em grego, os romanos em latim, etc. A Igreja, adquire dos povos que lhe compõem, aqueles elementos que são estruturalmente importantes para experimentar e exprimir a fé. É do mundo da cultura que advém os significantes que, no contexto comunicativo, são imprescindíveis para manifestar o Mistério, para experimentá-lo e exprimi-lo.
É da índole do rito romano uma tal sobriedade, que admite a criatividade oriunda da pluralidade cultural dos povos onde a Igreja se realiza. Embora tenhamos assistido a uma espécie de “folclorização” da Liturgia no pós-concílio, entendida no movimento de descoberta do lugar da diversidade cultural no âmbito do culto, a relação culto e cultura é algo não só necessário, mas fundamental na elaboração da identidade dos cristãos. Estudos recentes sobre a ritualidade insistem nesta perspectiva, reconhecendo a importância dos ritos – não apenas religiosos, mas também – na confecção do ethos cultural das pessoas. Mas isso não é uma novidade. Outrora já se dizia dos povos ancestrais e tradicionais que a religião funcionava como uma espécie de ‘alma’ da cultura. Mesmo que hoje vivamos no contexto de uma sociedade em processo de hipersecularização, os ritos ainda têm grande relevância.
O problema se dá quando se tentar dissociar a ritualidade de sua tarefa de constituição e reforço do ethos cultural. As consequências são catastróficas, pois a Liturgia é tomada como mero aparato cerimonial, sendo que, ainda assim cria e/ou reforça um ethos. Numa imagem, ‘um ninho vazio’, porque não funciona mais como berço humanizador, mas atende ideologicamente às agendas de seus sujeitos. Neste sentido, uma apropriada abordagem da Liturgia em relação à cultura precisa voltar à cena. Sobretudo no momento paradoxal em que vivemos, em que nos deparamos com movimentos de retorno à liturgia pré-conciliar (como se fosse, de fato, possível, uma vez que o sujeito cultural não corresponde mais àquele anterior à década de 60), urge reencontrar o lugar dos ritos no âmbito da elaboração da cultura. Particularmente neste preciso instante, ao respirarmos mais uma vez a parresia em que a Igreja se propõe como interlocutora dos eventos mais significativos da contemporaneidade, a Liturgia cristã necessita reencontrar seu valor e seu lugar na perspectiva da construção das identidades culturais, à luz do Evangelho de Jesus. Para isso, a inculturação é palavra-chave.