Na tarde do dia 3 de junho, momento em que entrego este artigo ao editorial do Conselho de Leigos, o mundo registra, segundo os dados da OMS (Organização Mundial da Saúde), a cifra de 380 mil mortes, entre 6,3 milhões de pessoas infectadas pelo Covid-19.
Por: Padre Antonio Carlos Frizzo
No Brasil, um país de proporções continental, em menos de 40 dias, três ministros ocuparam a chefia do Ministério da Saúde. O país ultrapassa a casa de 31 mil óbitos e o presidente da república ousa prescrever, num gesto de insanidade, medicamento – sem eficácia comprovada – por decreto lei. Diante de tantas bravatas e total desgoverno não é difícil prever que caminhamos a passos largos rumo a barbárie.
Entender a raça humana é um eterno questionamento. Eis uma questão desafiadora que se impõe sobre nosso horizonte. Uma geração vem, outra vai e a pergunta gira, gira e volta, cada vez com maior insistência e inquietude. Tudo segue como em uma interminável espiral, onde nos deparamos com constantes indagações: quem sou? O que é o outro? Quem somos? Por qual motivo estamos aqui? A pergunta se refaz, se impõe sem encontrar uma resposta satisfatória.
O autor do salmo 8 é um poeta ou uma poetisa. Pelo teor do escrito é uma pessoa orante e, em suas interrogações, assume a tarefa de representar toda a humanidade. Não fala apenas por si. Fala por nós. Isto mesmo: todos nós estamos no interior desse salmo. Nosso autor começa apresentando seu conceito divino: “Javé, nosso Senhor, como é glorioso o teu nome por toda a terra” (v. 1). Em seguida, contempla a beleza do universo. Exalta os elementos da natureza e juntamente com toda raça humana somos belas obras do criador. Na exaltação divina nota-se o uso da expressão hebraica ʾaddîr (glorioso), atributo universalizado no período pós-exílico, ao referir-se a Adonai.
Na estrutura literária imposta ao salmo 8, percebemos a exaltação ao nome de Adonai, abrindo e concluindo a narrativa (v. 2 e 10). Logo em seguida, as maravilhas feitas pelo criador são descritas em primeiro plano (v. 3-4), para, em um segundo, expor a chegada do ser humano (v.5). Nos versículos 6 a 9 notamos a descrição da dignidade humana apresentada como responsável em zelar pelas criaturas. Verifica-se a seguinte estrutura:
- Introdução: exaltação ao nome de Deus
- Descrição da criação divina
- Natureza como obra divina (v. 2-3)
- O ser humano como parte da criação (v. 4-5)
- Descrição da dignidade humana
- O ser humano feito “como” um deus (v. 6)
- Responsável pelo ato de cuidar da mãe terra (v. 7-9)
- Conclusão: repete-se a exaltação ao nome de Deus
Semelhante à narrativa da criação, existe integração harmoniosa entre todas as criaturas (cf. Gn 1-2). O ser humano, exaltado como criatura livre, por vontade divina e a ele é confiado a missão de gerenciar os bens de toda a terra. Assim como começou, o salmo termina com uma solene exaltação ao nome de Deus, elemento específico em toda atitude de louvor (vv. 2 e 10).
Mas, justamente em nossa geração constatamos que não cuidamos da obra divina. Ao contrário. Na ganância desenfreada pelo vil metal fizemos guerras, experiências atômicas fracassadas ameaçaram tirar do planeta pessoas, animais e vegetais. Poluímos nossas fontes e rios. Nossos mares tornam-se depósitos de lixos e resíduos industriais. Cada vez mais ingerimos alimentos e bebidas envenenados. Queima-se a Amazônia como se queimam os canaviais para a poda. Somos incapazes de implementar projetos eficazes e duradouros para reciclar plásticos, metais e papeis. Provamos ser ignorantes em matéria de preservação ambiental.
O Covid-19 não é um mero acidente, algo isolado. Não é resultado fracassado de um acidente em algum laboratório do mundo. É, sim, resultado das opções feitas ao longo da história, escolhas de como se relacionar com a nossa casa comum. Foram séculos e séculos de destruição de suas lagoas, seus ribeirões, seus rios e seus mares. Seus peixes e anfíbios seguem ameaçados de extinção ou já desapareceram. Seus pássaros com suas cores a enfeitar jardins, bosques e matas extinguiram-se diante da voracidade do corte de árvores. As comunidades indígenas – naturais zeladores das florestas – seguem marcadas ao desaparecimento, diante do desejo de ter riquezas, poderes e dinheiro a qualquer modo.
Agora, a mãe Terra, a grande Gaia – como era chamada pelos gregos – ou a Pachamana que tudo nos dá, carinhosamente cultuada pelos indígenas andinos, envia um vírus – do latim veneno, toxina – medindo 0,2µm capaz de tirar da face da terra a espécie humana. Eis um sinal da vingança na mãe natureza. De tanto ultraje, menosprezo ela nos envia um vírus que até então não conhecíamos.
O salmista fez um alerta: “somos feitos pouco menos do que um deus” (v. 6). Não somos donos do planeta. Estamos de passagem pela terra. E, por essa transitoriedade, saibamos aprender em meio a tantas dores, tantas perdas e sofrimentos. Basta de vilipendiar, maltratar nossa mãe terra. O momento exige uma conversão ecológica, construção de uma nova cultura, de novos hábitos, em comunhão com bem viver de todos, sem exceção. Como bem nos lembra o Papa Francisco, precisamos de uma Revolução Cultural, ainda há tempo, mas o tempo é agora. Saiamos desse vale de morte mais esperançosos e decididos a cuidar do planeta terra e garantir suas belezas e riquezas às gerações futuras.