No final dos anos setenta e início dos oitenta, do século passado, eu visitava os seringais do rio Envira, no município de Feijó, Acre. Levava comigo um rádio de pilha, para escutar a noite os noticiários das grandes emissoras da época, a BBC, Deutsche Welle, Voz da América, e a Nacional de Brasília que num de seus programas dava a cotação oficial do quilo de borracha.
Por: Dom Sergio Eduardo Castriani
Assim os seringueiros no meio da floresta sabiam quanto podiam receber do patrão e não eram mais enganados por ele. Pela primeira vez na vida vi o valor da ter uma informação certa e segura e o serviço imenso que os profissionais do rádio prestam ás populações da Amazônia. Quando chegou a televisão a influência cultural foi grande, mas o ganho em termos de informação foi mais forte. Todos reunidos na casa comunitária para assistir o Jornal Nacional, que ideologias a parte era uma janela para o mundo.
Embora a Rádio Nacional, fosse uma rádio estatal os noticiários para os seringais eram produzidos aparentemente sem a interferência do Estado. Regimes ditatoriais, logo que se instalam retiram a liberdade dos meios de comunicação. Quando falamos liberdade de imprensa nos referimos a todos os meios de comunicação de massa, como é o rádio, a televisão, e hoje a internet com seus diversos aplicativos de comunicação. Os grandes jornais se adaptam e com criatividade tem suas edições on line. Televisão e rádio também estão na rede.
Há muitas maneiras de se cercear o direito à liberdade de imprensa. Alguns Estados tem uma lei de censura para controlar tudo que é publicado, como foi durante o regime militar no Brasil. Outros o fazem através de pressões econômicas criando um clima de chantagem.
O Estado tem muito poder a sua disposição. Por isso a sociedade civil deve estar atenta as investidas autoritárias dos governos. O compromisso que a imprensa tem com a verdade é um direito do povo. Não haverá paz verdadeira, nem desenvolvimento verdadeiro, sem informações verdadeiras. Nada mais prejudicial a uma nação que as fake news. Temos no Brasil uma verdadeira central de fake news, que foi descoberta por uma comissão parlamentar de inquérito. Vamos ver os desdobramentos deste verdadeiro atentado à democracia, por que se não pudermos confiar naquilo que é publicado em que bases se dará o diálogo tão necessário para a governabilidade?
No ranking das profissões mais perigosas está a de repórter. Eles são temidos e odiados pelo pessoal do tráfico que fazem do segredo e da clandestinidade uma forma de vida. Políticos corruptos também abominam uma imprensa livre.
Mas certamente não se pode publicar tudo o que se quer. Informações que ponham em risco a vida e a segurança de terceiros. Informações sobre a vida íntima das pessoas que só interessam a fofoqueiros. Mas esta censura se assim podemos dizer será sempre uma autocensura. Os que se sentirem prejudicados podem recorrer ao judiciário. Talvez fosse bom ter um organismo independente para julgar estes assuntos. Sem liberdade de imprensa não há verdadeira democracia. Podemos intuir a importância dos meios de comunicação no processo democrático.
Mas hoje vivemos uma verdadeira revolução nos meios de comunicação. O face book, o instagram, o whatsapp, o youtube abriram as portas da comunicação para todos. O próprio conceito de liberdade de imprensa necessita ser revisitado. O Estado tem muita dificuldade de controlar o que sai nas redes sociais e é ai que as pessoas vão buscar informação. Em todo caso valem os valores morais de verdade, direito a ter um bom nome até prova em contrário, relevância da notícia e todos os outros que formam a ética da comunicação.
Irmã siamesa da liberdade de imprensa é a liberdade de expressão, conceito usado quando se trata de manifestações artísticas.
A Igreja tem sofrido muito na sua relação com uma imprensa livre. Mas apesar dos exageros tem sido uma purificação. Ninguém tem o direito de impedir que seja lançada a luz da verdade sobre fatos e acontecimentos que tiram a dignidade das pessoas. Na minha vida pública eu sempre tive como norma responder a todas as perguntas e atender a todo repórter que me procura. Nunca tive problema com a imprensa. Os profissionais da imprensa, sobretudo os mais jovens estão à procura da verdade dos fatos. Os meios de comunicação para os quais trabalham tem suas opções ideológicas, e ai depende muito da liberdade ou não que eles tem para trabalhar. Jornalistas e repórteres cristãos são sal e luz no exercício da sua profissão. Prestam um serviço não a Igreja, mas a humanidade. Quanto mais as relações humanas forem marcadas pela busca da verdade no respeito a liberdade , mais humanos nós seremos .