“Bubuiar”, palavra recorrente na fala das populações ribeirinhas da Amazônia brasileira vem sendo temperada. Se antes o ato de ‘ficar de bubuia’ remetia a imagens do ócio gostoso, de um corpo em plena conexão com a água do rio, hoje, a ele está incorporada a curiosidade, a vontade de conhecer e de produzir narrativas desse conhecimento.
Por: Ivânia Vieira
O recheio na composição da palavra envolve um projeto de vida do pesquisador João de Jesus Paes Loureiro, poeta, escritor e professor-doutor na Universidade Federal do Pará. Paes Loureio é catador de expressões da Amazônia profunda e escultor de inúmeras obras literárias nascidas nessas viagens de escuta pelos rios e igarapés amazônicos.
O bubuiar na perspectiva deste pesquisador assume a posição de colocar-se numa escuta profunda – como se estivéssemos viajando de canoa, sem usar o remo, deixando livre o movimento da água ao conduzir a embarcação – dos sons da floresta, das águas, do céu, dos outros seres vistos ou sentidos. Sistematizar os textos nascidos dessa observação-participante e compartilha-los, em coautoria, com o mundo.
A história das línguas é uma dessas viagens fantásticas em busca da história da humanidade, passa pelo momento em que o Verbo se fez carne e habitou entre nós, até as batalhas das narrativas deste Século 21. A língua como morada sócio-político-cultural desenha mapas de batalhas dos vencidos e dos vencedores. Gramatiza os arranjos em torno do que é correto e institucionaliza um sistema, uma conduta.
A língua oficial portuguesa, comemorada em 5 de maio, é falada em nove países (Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Guiné-Equatorial, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe, e Timor Leste). Em meio a controvérsia dos números, o português aparece como quinta língua mais falada por aproximadamente 280 milhões de pessoas (dados 2019). Estão presentes nos processos que posicionaram e impuseram o português como a língua a ser falada uma versão das lutas travadas pelos impérios do velho mundo nas explorações de outras terras e na expansão do domínio desses impérios.
No Brasil, o projeto oficial português passou necessariamente pela definição de uma língua diante de tantas línguas faladas neste então Novo Mundo e desconhecidas. Coube ao Nheengatu (a língua geral falada no Brasil até o século XVIII, numa construção feita por jesuítas, como meio de consolidar um idioma único) a tarefa deser uma das colunas do projeto de conquista. Hoje são apresentadas 274 línguas indígenas (dados do IBGE-2010) sobre as quais pouco sabemos, destas, a maior concentração está no Amazonas que detém a maior população indígena nacional.
A ação sistemática de destruição dessas línguas corresponde à política de extermínio dos povos indígenas que permanece em vigor. Pensar em língua envolve desviar fios das tramas do poder e da resiliência de povos, indígenas, africanos.
“Que fragmentos da língua se movem, de que modos, em quais formatos?”questiona a pesquisadora Joana Plaza Pinto (p. 29. 2016) e propõe pensarmos sobre quais as alianças, as cumplicidades, as resistências nas interpretações de que signos em que modos. Pinto defende que nesta matéria sejamos críticos na formulação de problemas sob parâmetros não normativos, que tencionem o projeto moderno-colonial da globalização e façamos “ferver mais forte o caldo dos paradoxos das línguas-em-movimento e das mobilidades em quadros espaço-temporais […] e criar perspectivas alternativas de confronto às hierarquias de corpos e de línguas no mundo contemporâneo.”
Daí a valiosa inserção do verbo bubuiar para que seja diversificadamente conjugado e para enfrentar os programas ocultos que promovem pela linguagem a exclusão do papel público de tantos sujeitos e povos.
¹Jornalista e Profª da Faculdade de Informação e Comunicação (FIC-UFAM)
REFERÊNCIAS:
BURKE, Peter, Porter, Roy. História Social da Linguagem. Editora Unesp/Cambridge University Press. São Paulo, 1997; ZOLIN-VESZ, Fernando (Org.). Linguagens e Descolonialidades – arena de embates de sentidos. Editora Pontes. Campinas/SP. 2016.