Os leigos na igreja

Estamos encerrando as comemorações dos cinquenta anos do Concílio Vaticano II (1962 a 1965 – 2012 a 2015). Nos 50 anos aconteceram profundas mudanças na vida da Igreja, contribuindo para a confirmação de uma cultura em amplo processo de transformação.

Por Dom Paulo Mendes Peixoto,
Arcebispo de Uberaba

Foi um tempo como verdadeiro “novo Pentecostes”. Ao lado do avanço técnico-científico, foram dados passos na forma de ser Igreja.No dia 18 de novembro de 2015, o Decreto conciliar sobre o apostolado dos leigos, “Apostolicam Actuositatem” completa cinquenta anos, quando foi assinado pelo Papa Paulo VI, no dia 18 de novembro de 1965. O texto, referente aos leigos na Igreja e no mundo termina assim: “… se tornem verdadeiros cooperadores de Cristo, trabalhando sempre na obra do Senhor com plena consciência de que seu trabalho não é vão no Senhor”.

A Igreja atravessa culturas, mentalidades, correntes de pensamento, mudanças profundas na história, mas não se abate diante dos desafios. A retaguarda não está apenas no empenho da hierarquia, mas, e principalmente, na força transformadora dos leigos e das leigas. Eles fazem a Igreja acontecer nos mais diversos ambientes, mesmo nos desafiantes areópagos da modernidade. Avaliando a caminhada do apostolado dos leigos e das leigas nesses cinquenta anos, temos que valorizar os passos que foram dados, o crescimento da consciência de ser Igreja e da radicalidade centrada no Sacramento do Batismo. Podemos dizer que evoluiu o dado de que, onde está o cristão, ali está a Igreja na sua missão.

Sabemos que a cultura do mercado, do consumismo e do bem-estar consegue criar nos cristãos um forte indiferentismo religioso. Com isto, muitos cristãos não se dão conta de que eles são Igreja e, por isso, não assumem compromisso missionário. Mas temos muitos leigos e muitas leigas que lutam corajosamente por um mundo mais humano e fraterno, mesmo sendo afrontados em sua missão.

A contribuição do Decreto conciliar tem sido muito grande. A constatação real disto está na formação de lideranças leigas. Também, “ninguém dá o que não tem”. Não podemos exigir compromissos dos leigos se não os formamos para tal. Leigos e leigas conscientes fazem a Igreja ser mais instrumento de vida e de transformação das realidades injustas em ambiente de dignidade. Creio ser hora de ir às fontes. Trazer para hoje a riqueza e o conteúdo da Apostolicam Actuositatem. Ela tem dados importantes para a atuação dos leigos nos nossos tempos. Quem sabe fazer disto um “novo Pentecostes”, abrindo espaço para colocar em prática as riquezas da ação do Espírito Santo nos próximos cinquenta anos.

A mudança de época exige novo “aggiornamento (reflorescimento)”, fazendo os leigos descobrirem sua ação na sociedade, no mundo da cultura, do trabalho, da política, da economia, do religioso etc. É a consciência da possibilidade de uma sociedade diferente e mais humana. Isso passa, principalmente, pela atuação concreta dos leigos e das leigas cristãos.