Solenidade da Ascensão do Senhor vivida no Ano do Laicato

Primeiro, vamos nos situar nesta solenidade como cristãos leigos e leigas;
num segundo momento, vamos compreender melhor as leituras;
em seguida vamos atualizá-las para, finalmente, relacioná-las com a Ação Litúrgica.

Por: Lúcia Pedrosa

Neste domingo da Ascensão do Senhor temos a alegria de contemplar Jesus em sua glória e em seu senhorio. E ouvimos, deste Senhor da glória, as palavras: “Anunciai o Evangelho a toda criatura!” (Mc 16,15). Inspirado por este mandato, acontece também a celebração do Dia das Comunicações.

Liturgicamente, estamos no tempo pascal. Os quarenta dias entre a Páscoa e esta solenidade da Ascensão de Jesus prepararam os discípulos e discípulas de Jesus para o nascimento da Igreja. Nestes quarenta dias, como nos diz a leitura dos Atos dos Apóstolos Jesus lhes aparecera, falando do Reino de Deus (At 1,3). Na liturgia, desde a celebração da Páscoa, aprofundamos no mistério da morte e ressurreição de Jesus, na vida nova que nasce do Batismo, na profundidade do amor de Deus por nós.

Hoje, nas leituras desta solenidade da Ascensão, Jesus dá as suas últimas instruções, expressa suas últimas promessas – a do envio do Espírito – e envia a comunidade em missão. E segue o seu rumo glorioso, é “elevado ao céu” – aquilo que no Credo repetimos: “está sentado à direita do Pai”. Trata-se da narrativa da nova realidade do Mestre, uma realidade grandiosa, gloriosa. Jesus partiu? Não, trata-se de sua nova forma de presença, que indica ao mesmo tempo o caminho glorioso dos seguidores de Jesus. Há uma glória escondida, mas real, aqui nas nossas realidades humanas, às vezes tão apagadas e prosaicas, às vezes até mesmo obscuras e carentes de sentido, outras vezes dramática.  Há uma glória escondida na fidelidade ao Reino.

Esta solenidade adquire especial sentido neste Ano do laicato, dedicado a impulsionar a ação evangelizadora que os cristãos leigos e leigas desempenham na Igreja e na sociedade. Nós, cristãs leigas e leigos, como toda a Igreja, precisamos de esperança, de motivos para lutar por um mundo melhor, por uma sociedade mais humana e justa. Precisamos de um horizonte que ajude a caminhar e manter o rumo. E esta solenidade da Ascensão do Senhor nos apresenta este horizonte de plenitude e glória, alimenta a esperança.

Hoje vemos grande ceticismo diante das soluções apresentadas pela maioria dos políticos, ou de seus partidos. Vemos um desencanto no futuro do mundo, do nosso país e cidade. Um sentimento de perplexidade e impotência diante do desemprego e da violência, da corrupção, do descaso ecológico. Onde está o nosso futuro? Há futuro? Há esperança? Seria melhor desistir do amanhã? Muitos desistem e se encerram em seus próprios interesses, se afundam no consumo. Ou refugiam-se numa forma aparentemente segura de religião, mas que orienta o olhar para o passado, não para o futuro. Outros se intoxicam com a crítica ácida e desesperançada do momento, quando não com o ódio com relação aos semelhantes que pensam diferente.

E aí, nos vem esta solenidade da Ascensão, que apresenta uma promessa, convida a jogar-nos em missão generosa, faz o olhar se dirigir à esperança de um futuro glorioso, mas sem alienação da terra, ao contrário, mantendo os pés neste chão. Vamos viver, de verdade este momento litúrgico.

Recordando a Palavra

Comecemos pela 2ª Leitura, da Carta aos Efésios 1,17-23. Esta é a Carta paulina mais significativa da teologia do mistério de Deus. O texto lido nesta festa é uma oração, que se transforma em proclamação da grandeza e força deste mistério, revelado na glorificação do Cristo. Como a Encarnação e a Morte/Ressurreição, também a glorificação deve ser entendida como um mistério, uma realidade transcendente às nossas categorias: o Pai manifesta a sua energia e sua força ao ressuscitar Jesus dos mortos e ao fazê-lo se assentar à sua direita, nos céus (v 20). E nós, celebrando liturgicamente a Ascensão, participamos deste mistério. Celebrando a glorificação do Cristo, tomamos consciência de nossa própria vocação à glória, para a qual podemos abrir o nosso coração. Diz a leitura: “que Deus abra o vosso coração à sua luz, para que saibais qual a esperança que o seu chamado vos dá, qual a riqueza da glória que está na vossa herança e que imenso poder ele exerceu em favor de nós, que cremos” (v. 18-19). Somos chamados e chamadas a conhecer a riqueza do nosso chamado, a esperança e a riqueza da glória.

A oração do dia reforça o sentido deste anúncio: que nos alegremos por sermos chamados, na esperança, a participar da glória de Cristo. A primeira leitura, dos Atos dos Apóstolos, é lida todos os anos nesta festa; o Evangelho, neste ano B, é o de Marcos. Ambas leituras estão interligadas e Marcos apresenta quase um resumo da leitura de Atos.

Nos Atos dos Apóstolos, Jesus nos mostra que, após a ressurreição, ele não vem retomar as suas atividades de antes, na etapa terrena, nem implantar um reino político, como muitos achavam que viria fazer, como expresso na leitura dos Atos: “Senhor, é agora que vais restaurar o reino em Israel?” (At 1,6). Jesus agora inaugura outra etapa, sua etapa gloriosa, seu senhorio transcendente. Ele volta a nós, mas de forma gloriosa, para nos animar com o seu Espírito: “Recebereis o poder do Espírito Santo” (At 1,8). E nós? Bem, é a nós que ele deixa a atividade aqui na terra, pois nós estamos na etapa terrena. A nós ele pede que sejamos “suas testemunhas… até os confins da terra” (At 1,8). Nada de ficar parado, olhando para cima, para o céu (cf. At 1,11). Somos nós os que, acolhendo o seu Espírito e por ele animados, precisamos reinventar, criativamente, a ação de Jesus nos nossos espaços.

Assim sendo, ao celebrarmos a Ascensão de Jesus, não celebramos uma DESPEDIDA, mas um NOVO MODO DE PRESENÇA, gloriosa, que é, nas palavras do Pe. Konings, em seu comentário Liturgia Dominical, um “aperitivo da realidade final”[1], ou seja, uma antecipação da realidade final: a volta do Senhor glorioso, para concluir o curso da História (como nos faz ver At 1,11: “ele virá do mesmo modo como o vistes partir”).

Não importa como imaginamos esta volta, mas nós afirmamos, junto com o salmo 46, que Jesus, desde já, é o “soberano que domina a terra” (v. 1b), o Senhor do universo e da história. E que nós colaboramos com a direção, o sentido definitivo, que ele estabelece e há de julgar. Ser Senhor do Universo apenas confirma que o caminho e a direção não são outros, senão o seguimento do peregrino de Nazaré.

O Evangelho de Marcos, por sua vez, está em consonância e, como já dissemos, é quase um resumo dos Atos dos Apóstolos. O Cristo glorioso confia a missão aos apóstolos: Ele diz: “Ide pelo mundo inteiro e anunciai o Evangelho a toda criatura” (Mc 16,15), convida a um crer forte e ao Batismo: “Quem crer e for batizado será salvo” (Mc 16,16) e, mais que dizer que seu poder os acompanha, descreve os sinais deste poder (Mc 16,17-18). São de fato sinais incríveis, é grande a força que Deus dá aos que crerem e se empenharem no testemunho e na pregação do seu Reino. Ficamos admirados com a narrativa de Marcos, e podemos buscar os sinais incríveis do hoje. Muito admiramos os feitos de mártires como São Oscar Romero ou Ir. Dorothy; observamos com admiração as ações do Papa Francisco: sua força, fidelidade ao Evangelho, alegria, fé viva e operante. Há sinais mais humildes e não menos incríveis: comunhão nas famílias e comunidades, liberdade diante do consumo ou do fascínio do lucro, conversão ecológica que abandona comodidades, fidelidade matrimonial. A presença do Evangelho não pode deixar de dar sinais, porque o Evangelho transforma tudo… E, em tudo, o Senhor ajuda.

A Ascensão de Cristo nos torna os responsáveis da missão à qual o Cristo, em sua glória, preside. Testemunhar o Evangelho não deixa as coisas como estão, provoca mudanças e deixa sinais.

Atualizando a Palavra

Viver esta ação litúrgica, a solenidade da Ascensão, pode renovar em nós a força para sermos uma Igreja em saída, como nos pede o Papa Francisco. O mandato de Jesus: “ide pelo mundo inteiro e anunciai o Evangelho” (Mc 16,15) e o alerta dos anjos: “por que ficais aqui parados, olhando para o céu?” (At 1,11) nos infundem a certeza de que é preciso iniciar ou avançar num movimento de saída com “determinada determinação” – uma expressão de Santa Teresa de Ávila[3]. Não uma determinação voluntarista, mas uma determinação ancorada num crer forte. Avançar para uma Igreja “em saída” com “determinada determinação”.

Uma igreja em saída, mas… para onde? A direção é clara, a do Reino de Cristo. Vivido nas pequenas e grandes realidades. As pequenas coisas – hábitos e atitudes que no cotidiano alimentam o diálogo, um caminhar juntos, uma compaixão amorosa. A direção do Reino nas grandes causas ecológicas, da justiça e da superação da violência. Na direção do cuidado e defesa dos pobres e sobrantes das nossas cidades.

Neste movimento de saída, podemos renovar nossa fé, o nosso crer e partir com confiança absoluta. A confiança a que a liturgia nos convida; a mesma confiança que o peregrino de Nazaré manifestava em todos os momentos da sua vida, confiança alimentada por uma vida de entrega ao Pai e por uma oração constante. A ascensão de Jesus nos mostra que o poder de Deus vai além de nossa imaginação e seu amor seguro nos enche de esperança, de confiança no futuro. Confiança que nos ajuda a superar outras “âncoras”, como pode ser a confiança em nós mesmos e nas nossas instituições, e mesmo em ações sociais ou doutrinas. Seguro mesmo é esta fé forte num Deus desconcertante, que gera liberdade, criatividade e que salva.

 Deus continua atuando, em nós e nas novas gerações, agindo no coração e nas consciências, em direção ao seu Reino. O Cristo glorioso não entra em crise, e seu Espírito continua sondando e impulsionando os corações.

A ascensão nos diz que podemos confiar naquele que continua vivo no meio do mundo, cheio de força. Seu movimento não se extinguirá, apesar do desânimo que às vezes sobrevém às mães diante dos filhos que não comungam com a sua fé, desânimo diante dos aparentes fracassos da evangelização, das teologias, das crises de linguagem e dos projetos políticos. Podemos confiar que, como a semente plantada, podemos até dormir, que o Reino, com sua força irreprimível, comandada pelo Senhor da glória, continua a florescer.

Podemos reafirmar nosso entendimento de que Jesus, o filho de Deus, é um Evangelho a ser anunciado – uma notícia boa que traz algo bom para a vida. Os Evangelhos nos dizem que Jesus é boa nova, uma novidade à qual se entregar, uma experiência de sentir-se perdoado e compreendido, de superar o medo, de agir corajosamente. Jesus é compassivo e próximo, abraça os que valem menos, importa-se com os últimos. Sua atuação atinge a todos como algo que movimenta internamente, algo bom, como saúde, perdão, verdade, força interior, mudança de vida, esperança.

A ascensão no Senhor nos convida a manter os pés na terra sem nos esquecer das realidades do céu que emprenham de esperança nossos cotidianos tão prosaicos, nossos fracassos vergonhosos, nossos melhores esforços.

Os sinais que o Cristo glorioso diz que acompanham os que crêem são um convite a perceber as maravilhas que Deus continua operando em nossas vidas. Estas maravilhas acontecem porque, como nos fala o Evangelho, “o Senhor nos ajuda e confirma nossa palavra com sinais”. Mas não busquemos o maravilhoso apenas no que é extraordinário, mas o maravilhoso que só um coração cheio de gratidão faz ver: as pequenas coisas invisíveis aos olhos, o poder amar, perdoar e recomeçar.  Esperar e viver como quem tem fé, no interior dos desafios graves de sermos homens e mulheres conscientes e responsáveis em nossas famílias, comunidades eclesiais e cidades.

Cultivemos o olhar místico, que faz ver os sinais de Deus em todo lugar em que há amor, serviço e entrega.

Aprendamos com o Senhor glorioso o significado do verdadeiro poder: é um amor que aprende a amar na contemplação do peregrino de Nazaré. Este amor-serviço é o caminho da glória.

Finalmente, o futuro glorioso nos enraíza de maneira qualitativamente nova no presente. Com abertura para as coisas novas, com coragem diante dos graves desafios que, de forma especial, nós, cristãos leigos e leigas temos que enfrentar nos areópagos do trabalho, da família, da política, das relações sociais. Aí podemos encontrar a presença do Senhor ressuscitado e ouvir seus apelos.

A plenitude ressoa em nós como promessa que adorna o nosso caminho. Que intensidade de amor nos espera, que comunhão, que alegria! Maior e mais intensa, infinitamente, que nossos frágeis e obscuros caminhos de amor. Esta glória plena do amor nós anelamos aqui. Ela é vida plena, que faz viver.

As mães, cujo dia coincide com este domingo da Ascensão, conhecem bem a força que o futuro imprime nas ações do presente. Elas têm especial capacidade para adentrar no mistério da Ascensão de Cristo.

Ligando a Palavra com a ação Litúrgica

Finalmente, na celebração eucarística, ou mesmo da Palavra que muitos irão viver, celebrando a Ascensão de Cristo, lembremos que caminhamos com esta esperança em comunidade, e não como pessoas isoladas.

Que a partilha do pão alimente em nós a certeza de que, na comunhão com Cristo, comungamos o desejo de trilhar os seus caminhos, que, pelo amor, levam com Ele à glória.