Vivemos num mundo complexo, cheio de incoerências, contradições e inúmeras formas de ser e viver. Porém, há um ponto comum inegável: o ser humano interage, interfere e, ao mesmo tempo, depende do meio ambiente. Há uma correlação direta que é química, física, biológica e psicológica.
Por: ROBERTO MISTRORIGO BARBOSA
Nos recusamos a rebaixar a Terra a um conjunto de bens e serviços naturais ou a um armazém físico-químico de matérias-primas. Ela possui sua identidade e autonomia como um organismo extremamente dinâmico e complexo. Ela, fundamentalmente, apresenta-se como a Grande Mãe que nos nutre e nos carrega. É a grande generosa Pachamama (Grande Mãe) das culturas andinas ou um superorganismo vivo, a Gaia, da mitologia grega e da moderna cosmologia, como vem apontando um dos grandes profetas do nosso tempo, Leonardo Boff.
Depois de um período de confiança irracional no progresso e nas capacidades humanas, o mundo está de ponta-cabeça, a pandemia subindo e a economia internacional caindo, um minúsculo vírus mudou muitos planos.
A Mãe Terra nos avisou. Foi vendo suas florestas sendo derrubadas, os recursos sendo arrancados do seu ventre, o ar poluído, os rios envenenados, os mares se enchendo de plásticos, seus animais retirados de seus habitats naturais e traficados. Tentou nos comunicar, nos enviou sinais de fumaça, enchentes e tantos outros sinais, até o dia do basta!
Agora nos colocou de castigo! Vão para os seus quartos e reflitam! Deixem eu me recompor um pouco, cuidar da minha casa sem vocês, cuidar um pouco da minha saúde e depois veremos como vocês se comportam. Um baita pito!!!
Em 1972, na Conferência de Estocolmo, promovida pela Organizações das Nações Unidas (ONU) com 113 países presentes, se estabeleceram 26 princípios e 109 recomendações sobre pautas abrangentes como poluição, preservação dos recursos naturais e pobreza. Já na ECO-92, com representantes de 172 países, foi dado o primeiro passo para a criação de um tratado internacional vinculativo.
Ou seja, há praticamente 50 anos da Conferência de Estocolmo e 30 anos da ECO 92, estamos falando sobre os problemas que vão ocorrer se não tomarmos decisões urgentes sobre o aquecimento global e a consequente extinção de 30% das espécies.
Diante da possibilidade da morte de milhões de pessoas em todos os continentes, percebemos, finalmente, que somos uma única comunidade, que habitamos a mesma casa comum e que precisamos de uma natureza saudável para sobreviver.
A COP 26 (Conferência das Nações Unidas sobre Mudança Climática de 2020) está sendo adiada novamente. Essa reunião é importante, pois 200 governos devem chegar com novos e mais ousados objetivos. Mas, para manter o aumento da temperatura global abaixo de 1,5 grau, é necessário pressionar os governos para que complementem seus compromissos, pois caso contrário a temperatura pode subir mais 3 graus.
É evidente que agora existem urgências maiores, mas a emergência climática continua gerando impactos cada dia mais visíveis, por isso a saída da crise do Coronavirus deve nos impulsionar a um novo modelo de políticas que gerem um cenário no qual a sustentabilidade seja um objetivo prioritário. Assim, é necessário que a COP 26 não seja adiada indefinidamente, mas que ocorra já nos primeiros meses de 2021.
Diante desse quadro funesto, não será exagero perguntar se a espécie humana vai sobreviver, e se vai, por quanto tempo ainda. Quanto tempo temos para mitigar os efeitos do aquecimento global, ou pior, ainda há tempo? Que modelo de mundo queremos para o futuro, que tipo de comunidade estamos construindo? Vamos trabalhar para deixar um Planeta melhor para as próximas gerações ou vamos cada vez mais conviver com cenários como o que passamos por causa dessa pandemia? Em suma, o que está em primeiro lugar, a economia ou a vida? O dinheiro ou nossa saúde?
No histórico de Emergências de Saúde Pública de importância declaradas pela OMS, essa é a sexta na contemporaneidade, e a mais comprometedora, pois está presente em mais de 150 países de todos os continentes. As anteriores foram a pandemia de H1N1 (2009); disseminação internacional de poliovírus (2014); surto de Ebola na África Ocidental (2014); vírus zika e aumento de casos de microcefalia e outras malformações (2016) e surto de ebola na República Democrática do Congo (2018).
Alguns cientistas usam o termo “antropoceno” para descrever esse período da história do Planeta no qual o ser humano se tornou a força impulsionadora da degradação ambiental e o vetor de ações que são catalisadoras de uma provável catástrofe ecológica. Nas palavras da jornalista Sucena Shkrada Resk, “… estamos em um front que expõe as vísceras de modelos carcomidos de desenvolvimento”.
O desprezo pela infraestrutura sanitária que daria retaguarda à saúde pública para o bem-estar equilibrado da saúde ambiental e o desapreço pela conservação ambiental – pressuposto para o equilíbrio ecossistêmico – se colocam como determinantes de uma possível catástrofe. Isso porque apesar da maior vulnerabilidade de idosos e de pessoas que sofrem de diversas patologias, “ninguém escapa da possibilidade de ser acometido pelas complicações severas da doença, em qualquer idade”, nos alerta a jornalista.
Estamos no olho do furacão e a previsão é de que a curva ascendente da doença ainda persista por muito tempo. No dia 07 de março de 2020, tínhamos 106.055 pessoas infectadas e havia morrido 3.598 em todos os países. Trinta dias depois, em 06 de abril, registrava-se 1.319.017 de pessoas infectadas ou seja um aumento de 1.244%. Há um mês, havia falecido 3.598 pessoas e nessa última segunda-feira, registrava-se 74.558 mortes, um aumento de 2.072%.
Por outro lado, a necessidade forçada de isolamento social decorrente da pandemia está mostrando ao mundo novas prioridades (que deveriam ser as prioridades de sempre), nos empurrando para um mundo mais solidário e fazendo com que todos percebam a importância de uma administração mais racional de nossa “casa comum”. Ainda nas palavras de Sucena Resk, “…este ‘chacoalhão’ no Planeta, com as quarentenas, está demonstrando que quando desaceleramos no desmatamento, na emissão de poluentes pelos combustíveis fósseis, o meio ambiente começa a se regenerar. Há uma melhora literal do clima. Mas com certeza ninguém quer que isso aconteça por causa de uma pandemia, mas da conscientização”.
Nesse sentido, temos a contribuição do sociólogo e economista José Eustáquio Diniz Alves ao apontar que “os teóricos do decrescimento econômico e do decrescimento demoeconômico consideram que deve haver uma redução das atividades antrópicas no longo prazo de maneira planejada”, reduzindo atividades poluidoras e queima de combustíveis fósseis, assim como o consumo de carne, além do incentivo às energias renováveis e de baixo carbono.
Recentemente, ao participar de uma conferência online promovida pelo economista e ex-banqueiro, Eduardo Moreira, o teólogo Leonardo Boff também nos guia pelas mesmas reflexões ao indagar sobre qual o sentido da nossa vida e qual o sentido que vamos dar para nossa história. Para ele, de certo modo essa crise é “benéfica pois nos obriga a um novo caminho de sobrevivência com mais solidariedade e mais compaixão”. Numa possível síntese da participação de Leonardo Boff nessa conferência, podemos afirmar junto com ele que devemos nos tornar cada vez mais seres de solidariedade, pois habitamos a mesma casa comum. Devemos entender a ordem do Criador no livro de Gênesis e administrar com sabedoria essa casa, usando o dinheiro para salvar vidas humanas mas também preservar a natureza que nos dá vida, deixando para as futuras gerações uma Terra viável e purificada.