No início do percurso quaresmal de preparação à Páscoa, a liturgia nos interpela com o tema das Tentações de Jesus (LC 4,1 13). São muitas as tentações que hoje nos perseguem, instigam e batem à porta. Múltiplas e variadas, estão por toda parte.
Por: Pe. Alfredo J. Gonçalves, cs
De maneira furiosa e apelativa, implícita ou explicitamente, rondam-nos a mente, o coração e a alma, circulando de forma incisiva ao redor da existência de cada pessoa. De cara, deparamo-nos com as tentações internas que, improvisam e emergem de nossas vísceras, qual um vulcão insaciável em busca de ar, luz e espaço. Escondem-se no mais íntimo das próprias entranhas, habitando secretamente a condição de todo ser humano. Sentimentos e emoções, instintos e paixões, ardores e temores…Trata-se da onipresença silenciosa mas premente do desejo, centralizado sobre o próprio umbigo. O império do prazer imediato, tratando de satisfazer, aqui e agora, todo e qualquer impulso. O domínio absoluto e imperioso do presente, que faz esquecer o passado e negligenciar o futuro.
Tropeçamos, em seguida, com as tentações do entorno mais próximo: convivência no interior da família ou comunidade, ambiente de trabalho ou de encontro/desencontro, momentos de lazerou de passa-tempo… Os embates do cotidiano provocam tensões e conflitos, discórdias e desavenças, desencontros e disputas – às vezes feridas e fraturas, contrastes e contradições sem um horizonte visível de remédio ou reconciliação. Se de um lado é verdade que a vida representa uma travessia em meio a uma floresta de espinhos, de outro é impossível sair dela sem arranhões e cicatrizes. Nesses combates do dia-a-dia, nas trevas ou à luz do sol, prevalecem não raro as manhas e artimanhas, os enganos e armadilhas, as ilusões e desilusões, o jogo de força e de poder, a riqueza e o capital. Faz-se de tudo para usar, manipular e dominar as coisas e as pessoas. Servimos-nos dos outros – de tudo, de todos e de qualquer um – em prol dos interesses pessoais, familiares, corporativos, políticos, ideológicos e até religiosos.
Aqui é fácil constatar que a distância entre as pequenas guerras que se desencadeiam nas relações pessoais e interpessoais, intra familiares ou comunitárias – mudas, surdas e secretas – diferem apenas em grau das grandes guerras que poem frente a frente, no campo de batalha, grupos e partidos, povos e nações, estados e exércitos – abertas, armadas e espetaculares. Umas e outras são acompanhadas, respectivamente, pela atitude de um mutismo envenenado ou por impiedosas rajadas de metralhadora: ambas nocivas e nefastas, estridentes e devastadoras. Ambas ceifam precocemente a vida, tanto em termos quantitativos quanto qualitativos. Grandes e pequenas guerras estão centradas no egocentrismo feroz e brutal, que tudo ante põe às prerrogativas do bem estar comum ou à mútua solidariedade.
Enfim, mas não em último lugar e entrelaçadas com as demais, batemo-nos a todo instante com as tentações de num contexto sócio histórico único e irrepetível. Desde o ponto de vista político, econômico e cultural, nascemos, crescemos e nos movemos em um ambiente circunstancialmente determinado. No caso da modernidade tardia ou pós-modernidade, impressiona a vertiginosa aceleração do processo de produção e/ou produtividade. Com menor quantidade de trabalho humano, se produz cada vez mais e de forma mais veloz. Nem por isso, porém, a humanidade superou as injustiças, desequilíbrios sociais e a fome. Ao contrario, a capacidade e rapidez sem precedentes de fabricar alimentos e bens em geral, tem aprofundado o abismo entre a acumulação da renda e da riqueza, por um lado, e da pobreza e exclusão social, por outro.
Como bem lembram os documentos Gaudium et Sps (1965) e a Populorum Progressio (1967) – ambos desenhados pela mão do Papa Paulo VI – o progresso tecnológico e o crescimento econômico caminham em descompasso com o “desenvolvimento integral” e com a “centralidade da dignidade da pessoa humana”. De resto,ao longo de toda a sua evolução e desde seu documento inaugural, a Rerum Novarum (1891) do Papa Leão XIII, a Doutrina Social da Igreja jamais deixou de denunciar essa assimetria irracional de um “crescimento econômico viciado”, movido pelo motor do lucro a qualquer preço, em detrimento da atenção às necessidades básicas da maioria da população.