Vozes que clamam em meio ao caos

A profecia ainda se faz presente no nosso cotidiano, seja por vozes que conseguem chegar às pessoas ou por vozes que não conseguem ser escutadas. Com essa afirmativa queremos dizer que o número de pessoas que buscam ser ouvidas em meio a esse caos instaurado por conta da pandemia ocasionada pela Covid-19 é de busca por sobrevivência, quase sempre feito de maneira “caseira” e sem muitos recursos.

Por: Gisele Canário

Na quarta semana do mês de abril o Papa Francisco trouxe à tona, com vigor profético em nível de retomada, o documento Laudato si que tem como propósito vital o cuidado com a casa comum. E, claro que essa retomada veio de maneira atualizada, trazendo a discursão sobre o coronavírus e o cuidado, em busca de reformular o mundo que possivelmente surgirá após o fim da pandemia. A crise atual exige uma nova profecia, e isso se dá pela urgência de começar de novo, com o intuito de garantir que esse mundo que poderá surgir seja mais sustentável e que a justiça seja em prol do bem comum.

O Papa Francisco tem discutido que esse “mundo interligado”, e esse caos provocado na saúde dos seres humanos em muito tem a ver com a catástrofe ecológica. Essa crise se desencadeia de tal forma que irá afetar as pessoas direta e indiretamente. O mais conflituoso dessa crise é que os pobres e vulneráveis, serão, como sempre, os mais atingidos. Fica visível as grandes injustiças sociais nas quais ameaçam a maior parte dos seres vivos de nossa sociedade.

A força da Palavra

As construções narrativas que encontramos no Antigo Testamento apontam para uma profecia que não mede esforços para a defesa dos mais injustiçados. Encontramos no livro de Miqueias uma forte violência e espoliação em guerras (Mq 1, 8-16), o povo estava sofrendo todos os dias com os militares na fortaleza e a exploração da elite agrária e dos governantes sediados em Jerusalém: formação de latifúndios (Mq 2, 1-3); apropriação de terras; violência contra as mulheres e crianças (Mq 2, 8-9); pesados tributos; corveia e serviços militares obrigatórios; suborno em favor de grandes tribunais; profetas e sacerdotes corruptos (Mq 3, 1-12). Diante das injustiças sociais e religiosas, Miqueias grita contra os ricos e poderosos de Jerusalém: “Vocês são gente que devora a carne do meu povo” (3,3 cf. 3,10). Miqueias é um camponês profeta, que vive no meio do povo espoliado, e exprime sua dor e ira em uma linguagem dura e forte, semelhante a Amós, também profeta do interior.

Nesse contexto da Palavra de Deus, também no nosso século atual, nos encontramos ameaçados. As denúncias do profeta Miqueias deveriam ser as mesmas de hoje, apenas com as alterações necessárias à nossa época. A nossa falta de coragem nos torna vítimas de ameaças que tem roubado a vida de todos os seres vivos de forma acelerada e cruel.

No Novo Testamento a profecia aparece em cada atitude e gesto de Jesus. Para essa reflexão trazemos a passagem de Mc 2,18-22: Vinho novo em odres novos. As primeiras comunidades cristãs, em seus escritos, fomentam com intensidade a novidade que a mensagem e a atuação de Jesus representam para elas. Com ele inicia-se uma “nova aliança” com Deus, sempre apontando para a construção de um Reino Novo.  Ele introduz no mundo o “mandato novo do amor”. É portador de um “espírito novo” e de uma “vida nova”. Torna possível a esperança de conhecer um dia um “novo céu” e uma “nova terra”. Só ele pode dizer: “Faço nova todas as coisas” (Ap 21,5).

Essa forma de construir o Reino de Deus, nos faz verificar as nossas pautas de continuidade e atualização desse Reino. Nesse período de pandemia muito se tem falado sobre como será o mundo após essa crise. É verdade então que o mundo se tornaria mais humano? Que os cristãos repensariam e, então, passariam a viver a verdadeira essência de um seguidor do Reino da Vida? Seria verdade que as pessoas seriam mais solidárias e passariam a fazer da profecia a sua luta diária, buscando por um mundo com menos desigualdades sociais? Provavelmente serão inúmeros os problemas a serem enfrentados, entre eles apontamos alguns que consideramos mais visíveis: Desigualdades sociais; pobreza (miséria, fome); crise ambiental (ameaças/ poluição/ mudança de clima, superpopulação); violência (crime, guerra e terrorismo, aspectos comportamentais (ética/ corrupção, comportamento, intolerância); desemprego, distribuição de renda, modelo econômico, sustentabilidade). Essas pautas todas entrariam no nosso ser cristão? Para os muitos formadores de opinião o grande problema é de ordem socioeconômica: boa parte aponta as desigualdades sociais, a pobreza, desemprego, o modelo de produção econômica e a atual distribuição de renda como alguns dos inúmeros problemas a serem enfrentados. Os itens supra citados são um convite profético a se tentar salvar a humanidade, os seres humanos e não, erroneamente, o Planeta.

Esta nova forma de atualizar a profecia que herdamos do povo de Deus e das primeiras comunidades cristãs se exige novos esquemas mentais, novos modos de atuação, novas formas e estruturas que estejam em sintonia com a vida nova e o espírito novo que Jesus traz consigo: “Ninguém põe vinho novo em odres velhos; por que o vinho rompe os odres e tanto o vinho como os odres se perdem. Para vinho novo, odres novos” (Mt 9 16-17). A proposta é uma só: não se deve misturar o novo com o velho numa tentativa equivocada de harmonização e equilíbrio de sabores. O espírito novo deve impregnar tudo.

Nesse sentido em tempos de pandemia a exigência profética se mantem necessária. A nossa imagem do Deus da vida deve ser clara e não um “conglomerado religioso”, onde não se dissociam a ira e o amor, a justiça e o perdão, a vingança e a bondade. Esta imagem confusa, elaborada a partir de objetos heterogêneos, dá origem muitas vezes a formas religiosas que se afastam muito do que foi anunciado por Jesus. O medo e o castigo nunca foram práticas de Jesus, ao invés disso sempre coube em seus ensinamentos o arrependimento e o perdão.

Esta mistura de coisas significa quase sempre um distanciamento em relação a Jesus, impedindo-nos de desenvolver a força salvadora de seu anúncio a respeito do Reino de Deus e, pode causar-nos muito dano. O melhor caminho para purificar a fé é, sem dúvida, conhecer Jesus, captar sua atuação junto aos enfermos, leprosos, pecadores, e crer firmemente em sua palavra: “Quem me viu, viu o Pai” (Jo 14,8).

O que impediu muitos de seus contemporâneos de acolher Jesus foi o medo da novidade revolucionária de sua mensagem e atuação, que punha em questão seus esquemas de vida, suas tradições e até a segurança de sua religião. Jesus foi claro. A conversão que ele prega não consiste em introduzir um pequeno “remendo” no sistema de vida judaico. A novidade que ele traz não pode ser encerrada nos “odres velhos” da religião de então.

Depois de tantos anos passados, o evangelho continua encontrando nos religiosos as mesmas resistências. O que se busca? Viver a Fé Cristã na “casaca” ou superfície de nossa existência, como um “remendo” acrescentado à nossa vida?

É a tragédia do nosso Cristianismo. Nossa vida acaba por se configurar de acordo com os critérios e esquemas de uma sociedade que não está inspirada pelo Evangelho. Pretendemos seguir Jesus sem conversão. O Evangelho não consegue introduzir uma mudança em nossa maneira de viver.

A Profecia em tempos de Covi-19

Uma coisa não há de se discutir, a pandemia do covid-19 está gerando uma série de incertezas e sofrimento em todos os cantos do mundo. Nesse momento são inúmeras as pessoas que se encontram contaminadas, e claro, nossa compaixão se dirige àqueles que são contaminados. Também devemos nos preocupar com os inúmeros profissionais que se arriscam todos os dias para servir, seja por meio dos hospitais, ou os outros serviços essenciais.

Reconhecemos esse vírus como uma grande tragédia, mas também temos clareza que essa doença foi prevista há muito tempo, desde em que foi identificada pela primeira vez em 1937 e descrita especificamente como corona em 1965, quando se conheceram suas características morfológicas.

No ano de 2007, os cientistas já haviam alertado que os morcegos carregavam um vírus que era questão de tempo para se espalhar em humanos. Tudo isso, em conjunto com a crescente prática de destruir habitats naturais e o comércio de animais selvagens ilegais, reduziria as barreiras naturais que separam esses animais dos seres humanos.

Sem dúvidas, o surgimento desse vírus e tantos outros já instaurados e esquecidos muitas vezes por todos nós, é uma das consequências devastadoras da forma como tratamos os seres vivos. Essa falta de cuidado com todas as formas de vida, o nosso modo de gerir a nossa casa comum demonstra a nossa frágil maneira de fazer profecia (o mesmo que dizer cidadania). Não seremos saudáveis, se a nossa casa comum não está sendo cuidada.

Em lugares onde o surto continua grave as famílias lutam para se livrar do vírus, ao mesmo tempo que buscam o alimento de cada dia. Quando essa pandemia for minimizada, a dor continuará com a perda de seus entes queridos. Sabemos que as economias estão paralisadas e a perda de trabalho está acontecendo de maneira sem precedentes. Em alguns lugares, a pandemia expôs governos que não funcionam; em outros, forneceu um pretexto para o maior aumento da corrupção; em outros ainda, levou a um aumento discriminatório do regime autoritário. Uma coisa sabemos, a curto e a longo prazo, estamos imersos à uma grande incerteza sobre a recuperação econômica e a estabilidade das instituições sociais. Nesse sentido surge o nosso clamor e labor profético. É em meio a essa pandemia que nos descobriremos profetas do Reino da vida. Não permitir depositar o vinho novo em odres velhos, mas nos recuperando dessa insensatez que continua vigorando o nosso tecer religioso. Rogamos ao Deus da vida, que não percamos a esperança e principalmente o dom profético, sem medo, irrestrito e se confundindo o tempo todo com o desejo de permitir a vida em abundância para toda espécie de vida que habita a nossa casa comum.